Conto da leitora Ângela Beatriz Sabbag: “Ne Me Quitte Pas”

Os sentimentos não são explicáveis, não se compram e vendem e nem se barganham com chantagens

Naquele subúrbio carioca até as criancinhas sabiam cantar de trás para a frente essa canção francesa. Adelina a ouvia todos os dias, no volume máximo do seu toca-discos, presente que ganhara de sua querida tia Marlene ao completar quinze anos de idade. Não conseguia diagnóstico para as reações que a canção lhe causava, porém poderia afirmar com toda a certeza que eram emoções fortes e que a deixavam numa espécie de transe.

Tendo pouca idade e poucos recursos, Adelina era mais uma aluna das fraquíssimas escolas públicas atuais, de sorte, ou melhor, falta de sorte, que nem o próprio idioma sabia muito bem. Mas Adelina era muito curiosa e quis saber o que queria dizer a frase com que a canção que tanto a encantava começava. Ficou indignada ao saber que “Ne me quitte pas” podia ser traduzida por “Não me abandone”. Ficou envergonhada, P da vida, imaginando que todo o bairro pensaria que ela estava implorando a uma pessoa que não a abandonasse, que se sentia em tanta sintonia com a canção por tratar-se de sua história de vida. Esbravejou, xingou com todas as parcas e porcas palavras que faziam parte do seu vocabulário, ficou vermelha e num primeiro momento teve ímpetos de espedaçar o disco de vinil. Mas a medida que ia se acalmando, depois de ingeridos litros de suco de maracujá, pensou melhor e resolveu que não ia ligar para o que a vizinhança pensasse, o que não seria imaginável era ela não ouvir mais aquela música todos os dias, todas as horas que ficava em casa.

” Ne me quitte pas, il faut oublier…”, como se não bastasse estar quase quebrando todas as vidraças de sua casa pobre, devido ao volume do som, Adelina acompanhava a letra imprimindo um grande desespero a canção que por si só já denota tanto tal sensação. Ela no auge da irritação falava sozinha aos brados que era ridículo alguém implorar por algum gesto ou por qualquer sentimento, ambos têm que ser espontâneos, a pessoa é destinatária deles ou não…e ponto.

Ficou maldizendo a pessoa que implora a outra que não a abandone, que não a esqueça, que não a deixe de amar ou qualquer outro tipo de pedido com sabor de súplica. Ai, que horror! E no auge de sua adolescência, com a imaginação a mil, enxergava um homem indo embora e uma mulher desafortunada, destituída de qualquer amor próprio, jogada ao chão agarrando aquele homem pelos tornozelos, descabelada, maquilagem borrada de choro e implorando que o homem não a esqueça. Pensava assim: Ora minha filha, implore a uma força divina que ele não só a esqueça como também a essa cena patética, será bem melhor para você, acredite.

Os sentimentos não são explicáveis, não se compram e vendem e nem se barganham com chantagens, portanto é ponto pacífico que eles aconteçam ou não.

Adelina continuou a sentir-se em inexplicável transe durante todos os anos posteriores ao dia no qual se revoltou contra a letra da música, não poderia ser um detalhe assim tão sem importância que a fizesse desligar-se daquela sua vida suburbana ao som e ao enlevo de Ne me Quitte Pas.

 

Ângela Beatriz Sabbag é mãe, avó, Bacharel em Direito, escritora do livro “Despudoradamente, me despi”, além de ter participado do livro da Maitê Proença: “É Duro Ser Cabra na Etiópia”.

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