Bob Wollheim: “O individualismo que está nos matando”

Raramente nos unimos em torno de algo em comum. Momentos como manifestações pela morte de uma pessoa como a Mariella são únicos e muito raros

Tenho refletido muito sobre os porquês de estarmos tão apáticos, conformados e quietos como povo, apesar dos maiores absurdos na política continuarem acontecendo – leia também: Nosso imobilismo, como se explica?. Escrevi aqui nesta coluna que talvez seja a economia. Afinal, com a crise que nos cerca, ligamos todos um modo “sobrevivência”, e, como tal, pouco nos importa o resto. Faz algum sentido. Mas, me parece, falta entender melhor essa questão.

Tenho lido tudo que cai na minha mão sobre nosso país, principalmente coisas escritas por gringos que moram ou moraram aqui, e tenho aprendido alguns aspectos importantes. Vejo muitas diferenças de como nos vemos e de como os estrangeiros nos veem. Gostamos de várias definições que nos colocam, mas, muitas deles, penso que se trata, na realidade, de mitos.

O maior mito, penso, é que somos um povo unido. Há muita confusão entre sermos alegres, festivos e aparentemente abertos (outro mito, a meu ver) e sermos unidos. No máximo, nos unimos pela seleção. Talvez por razões de nossa origem– éramos desde sempre a terra a ser explorada, local inóspito e distante, mas muito rico –, criamos um senso muito forte de sobrevivência e de luta que, no final, resulta em individualismo muito grande.

Nos Estados Unidos, existe um senso muito forte de comunidade entre pessoas que moram num mesmo bairro, ou cujos filhos estudam numa mesma escola. Aqui, raro. Muito raro. Existe sempre um valor e um critério para o EU, e outro, muito diverso, mais rígido, mais crítico, para o OUTRO.

Raramente nos unimos em torno de algo em comum. Momentos como manifestações pela morte de uma pessoa como a Mariella são únicos e muito raros, como foram os movimentos de 2013. Mas, por coisas mais simples, mais do dia a dia, raramente estamos unidos.

Os empreendedores, que são aqueles que acreditam que podem mudar o mundo, não se unem! O desafio é que nações só se tornaram grandes nações quando seu povo se uniu em torno de grandes causas. E tudo começa, a meu ver, nas pequenas coisas, no senso de pertencimento, no senso de comunidade e onde o coletivo vale mais do que o individual.

O país que consagrou sua cultura em formato de bordão publicitário, a conhecida “Lei de Gerson” – gosta de levar vantagem em tudo! –, precisa olhar seu umbigo, refletir e reconhecer que, pela luta individual, dificilmente se chegará a um país melhor para todos. Nós, como parte da elite deste país, temos de refletir sobre isso e sobre as consequências disso, sob o risco de, ao não fazermos, seguirmos vivendo no eterno país do futuro!

Compartilhe
Escrito por
Leia mais de Bob Wollheim

Muita calma nesse hora

Passou impeachment, Cunha já caiu, Temer é presidente oficial e a crise...
Read More

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *