Marcio Rachkorsky: Individual, coletivo. O conceito do condomínio

Em busca de segurança, economia e praticidade, milhões de famílias migraram de casas para apartamentos e precisaram adaptar hábitos para o convívio coletivo

Condomínio quer dizer copropriedade, domínio comum. Quem opta por viver em um adere ao modelo de moradia compartilhada, com áreas privativas, áreas comuns e rateio de despesas. Em busca de segurança, economia e praticidade, milhões de famílias migraram de casas para apartamentos e precisaram adaptar hábitos para o convívio coletivo em um ambiente com regras, deveres e regulamentos próprios. Surgiram os grandes empreendimentos, curiosamente chamados de “condomínios-clube”, com uma infinidade de áreas de lazer e serviços facilitadores.

Diante de tal cenário, os custos de condomínio aumentaram bastante, e, apesar do conceito coletivo, individualizar despesas virou meta, de forma a premiar as famílias mais conscientes e penalizar os gastões. A cada ano, mais e mais condomínios passam a realizar a leitura individual do consumo de água e gás, gerando economia, consciência ambiental e, sobretudo, melhorando o comportamento das pessoas. Todavia, nota-se, de forma até preocupante, certa obsessão por individualizar despesas universais, conceitualmente coletivas. Um movimento que colide frontalmente com a natureza clássica da vida em condomínio. Falo aqui de um pensamento egoísta, uma sobreposição dos interesses individuais sobre os coletivos.

Num grande empreendimento, com lindas áreas comuns, os moradores decidiram, no passado, estabelecer uma programação esportiva. Funcionou superbem, até que um grupo iniciou um movimento de “não uso o serviço, não devo pagar”. No raciocínio deles, quem faz esporte deve pagar os professores. Já os usuários entendem que o serviço está disponível a todos e, assim, é natural fazer parte das despesas comuns.

Logo a discussão pegou fogo no grupo de WhatsApp e, como de costume, virou baixaria, com ofensas pessoais. O casal de idosos que adora participar das aulas de ginástica logo bradou: “se não querem pagar os professores, porque não usam, então não vamos pagar a reforma do parquinho, pois não temos crianças”. O morador do primeiro andar, querendo contribuir, sentenciou: “então não devo pagar as despesas com manutenção dos elevadores, pois só uso as escadas”. A moça que odeia cachorro se encorajou a dizer que achou um absurdo gastar R$ 40 mil na reforma do espaço pet. Todos estão errados!

O grande barato de viver em condomínio é justamente o prevalecimento do interesse coletivo sobre o privado, de forma a prestigiar a finalidade social do empreendimento e promover o entrosamento e convívio social entre vizinhos e, nos limites da lei, respeitar a vontade e as decisões da maioria. Daí a importância de comparecer às assembleias e colaborar para a elaboração de uma previsão orçamentária anual justa, equilibrada e que, conceitualmente, atenda aos interesses da coletividade.

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