Marcio Rachkorsky: “Tem pai que é cego”

O que mais preocupa nas ocorrências em condomínios com jovens é a postura dos pais, sempre prontos a defender seus filhos, por mais errados que estejam

Décadas atrás, um famoso programa humorístico tinha um personagem muito engraçado, que fazia questão de não enxergar o comportamento do filho. Surgiu, então, o bordão “tem pai que é cego”! Ao longo das férias, lembrei-me várias vezes desse bordão, mas, infelizmente, não foi nada engraçado. Foram quase dois longos meses de férias escolares, e, diante da grana curta e do tempo chuvoso, as famílias viajaram menos. Logo, a molecada ficou pelo condomínio, e as ocorrências disciplinares explodiram. Vida dura para zeladores, porteiros e síndicos, que precisaram de muito jogo de cintura e paciência. Nos prédios que administro, não foi diferente, e, apesar de uma ou outra ocorrência mais séria, tudo restou equacionado.

Todavia, conversando com diversos síndicos e zeladores, o que mais preocupa nas ocorrências com jovens é a postura dos pais, sempre prontos a defender seus filhos, por mais errados que estejam. Falo aqui não de traquinagem de crianças, mas de casos sérios, envolvendo depredação de patrimônio, desrespeito aos idosos, uso de drogas e até agressão física. Pais que, em defesa visceral dos filhos, usam argumentos pífios, quase inacreditáveis, e, pior, tentam transferir aos funcionários do condomínio o dever de olhar, cuidar e repreender os jovens.

Nas férias, foram muitos casos de pais, constrangidos e incrédulos, assistindo a imagens gravadas pelas câmeras do condomínio, hábeis a comprovar o comportamento nocivo de seus filhos. Ainda assim, muitos deles falam em perseguição, vitimizam os filhos e reclamam até indenização por dano moral. Realmente, “tem pai que é cego”!

Combater o mau uso das áreas comuns e garantir um ambiente de paz e harmonia, sem abrir mão do lazer e da diversão ao longo de todo o ano, é tarefa árdua e complexa, que depende sobretudo da educação e do bom senso dos moradores.

Algumas dicas simples podem ajudar muito nessa missão:

→ revisão e modernização do regulamento interno, com regras claras sobre horários, forma de usar e proibições para cada espaço;

→ inclusão, no regulamento, de penalidades mais severas aos reincidentes;

→ intensa campanha de conscientização, com cartinhas e comunicados leves e objetivos;

→ nos condomínios maiores, criação de uma comissão de pais para tratar de assuntos disciplinares, em apoio ao síndico;

→ ouvir as demandas das crianças e adolescentes e investir na manutenção e criação de boas áreas de lazer e convivência;

→ treinar e orientar os funcionários, para que façam abordagens gentis e não se envolvam em embates e discussões;

→ investir em bons sistemas de câmeras e gravação de imagens, para inibir mau comportamento e gerar prova material para punir os infratores.

Tenho três filhos, moro em condomínio e sou o síndico… As férias estão acabando. Ufa!


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COMENTÁRIOS

  • O Marcio é amigo da onça, só defende a adm. dos condomínios, e nunca se colocar em favor dos condô
    minos que são os que sustentam e mantêm os mesmos. Deveria atuar de maneira isenta e mão dupla.

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