Waltinho Nascimento: “Futebol é coisa de homem?”

Existe o óbvio mas válido argumento de que os costumes sociais, de alguma forma, sempre impediram que uma mulher frequentasse o tipo de ambiente onde o futebol costuma reinar

Assunto polêmico na coluna de hoje.

Por quê o futebol, ainda que em tempos ¨modernos¨, impacta em todas suas frentes – presença em estádio, consumidor heavy user, bate papo nos bares, audiência de programas esportivos etc – muito mais homens do que mulheres?

Uma teoria muito atual, fruto de um feminismo que vem ganhando força nas rodas de debates sociais e culturais, onde o homem vem apanhando impiedosamente – às vezes merecidamente, às vezes de forma equivocada – acredita que o futebol se tornou (para as/os feministas), em certa medida, a representação da sociedade machista, homofóbica e violenta que vivemos.

Já disse na coluna ¨árbitro de vídeo¨ que esse pensamento me parece, no mínimo, um pouco injusto. É a mesma coisa que culpar o facebook por alguém fazer um post racista. Obviamente tanto o futebol como o facebook, são apenas o meio que certas pessoas demonstram certas posições.

Ainda nessa linha, existe o óbvio mas válido argumento de que os costumes sociais, de alguma forma, sempre impediram que uma mulher frequentasse o tipo de ambiente onde o futebol costuma reinar, embora cada vez menos isso aconteça em dias atuais.

Futebol contagia

Outra teoria para essa questão é um pouco mais antiga.

Já no século XIX, Gustave Le Bon, psicólogo social francês, criou uma teoria que pode se aplicar muito a como torcemos no futebol: o fenômeno do contágio.

Le Bon descreve em seu livro – Psicologia das Multidões (1895) – um fenômeno que aparece em grupos – torcidas, no nosso caso – onde há um enorme vínculo emocional entre seus membros e este, é sustentado pelo vínculo emocional entre o grupo.

Ou seja: se existe uma causa em comum, muitas vezes um indivíduo é tomado por um sentimento coletivo que o contagia, e o leva a fazer coisas que provavelmente sozinho, jamais teria coragem ou até mesmo desejo de fazer.

Mas o fenômeno do contágio seria algo tipicamente masculino? Acredito que não.

Psíquica obsessiva?

Recentemente num jantar com amigos psicólogos, ouvi mais uma teoria: o futebol é algo tipicamente masculino, pois torcer com veemência é característico da estrutura psíquica obsessiva. O prazer em se sentir poderoso e reconhecido, – que no ambiente do futebol se realiza na hora em que desdenhamos do amigo torcedor de outro time derrotado – é da estrutura obsessiva, que é mais comum em homens do que em mulheres.

Com certeza, existem inúmeras teorias mais para explicar ou pelo menos levantar o debate sobre a pergunta título, mas recentemente vi em uma cena de uma série que gosto muito, uma posição que poderia fazer mais mulheres se identificarem com o prazer que é ter um time de coração.

No quinto episódio da primeira temporada de This is Us (Fox Premium), Rebecca, personagem vivida por Mandy Moore, se pega entediada em um bar, encarando seu marido, Jack (Milo Ventimiglia), e lembrando de como viu por toda sua vida, sua mãe, submissa, em casa, servindo cerveja a seu pai, enquanto ele ficava no sofá assistindo ao jogo de domingo.

Rebecca, profundamente incomodada com aquela situação, fala uma frase que pode servir como uma lição para nós – apenas mais uma que a série nos ensina.

¨Eu me recuso a ficar aqui olhando para você assistindo ao jogo. Então me ensine. Me ensine o futebol (americano)¨, diz a personagem.

No decorrer do episódio, vemos que Rebecca passa e se interessar e conhecer futebol mais que seu marido, assim, o futebol passa a ser uma tradição daquela família.

Como alguém que ama futebol (o nosso), eu peço: mulheres, vocês que gostam de futebol, se espelhem em Rebecca, e sigam, seja lá qual for o caminho para pertencimento desse esporte, e venham fazer parte de algo tão importante para nós.

 

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