Waltinho Nascimento: “Pulsão de vitória – quem critica a Copa está perdendo o jogo da vida”

Claro que temos que nos preocupar com a política, mas num país onde o desamparo está sempre rondando, a sensação de ver um chute brasileiro entrando no gol adversário em uma Copa é indescritível

Amanhã jogaremos as quartas de final da Copa do Mundo e eu continuo vendo nas redes sociais um grande número de pessoas criticando quem se interessa pelo torneio. Ressaltando a falta de consciência de quem “se vendeu” a esse “pão e circo” que a Copa representaria para um país que vive momento tão conflituoso e delicado politicamente.

Antes de seguir falando de futebol vou filosofar um pouco aqui. Peço desde já desculpas pela escrita simples e também a quem entende profundamente do assunto. Se meu pensamento não for exatamente correto, me perdoem.

Recentemente fui a uma aula do filósofo Luiz Felipe Pondé, meu professor desde a época da faculdade, até hoje. A aula tinha como tema a Pulsão de Morte, de Freud.

Em sua Pulsão de Morte Freud explica que o ser humano teria um desejo inconsciente de se livrar de conflitos e contingências da vida, buscando a volta a um estado que nos encontrávamos quando bebês, onde tínhamos a sensação de estarmos protegidos de tudo de ruim que o mundo poderia nos oferecer.

Mas Freud levanta um questionamento maior: e se parte da nossa mente quisesse regressar ainda mais, ainda antes de quando nos tornamos uma matéria orgânica que viria a ser protegida pelos nossos pais? E se tivéssemos uma forma de nos livrar de todo o desamparo que sentimos enquanto vivos, e buscássemos um estado inorgânico onde tudo estava ainda mais protegido? E se fizesse parte de nossa mente, buscar sem saber, a única forma de segurança total: a morte?

“Uma pulsão é um impulso, inerente à vida orgânica, a restaurar um estado anterior de coisas, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob pressão de forças perturbadoras externas”. Nas palavras do próprio Freud.

Segundo Pondé, Freud desenvolve essa teoria com sua base médica – Freud foi neurologista de formação – citando, por exemplo, que a matéria como um todo enfrenta sempre o conflito construção/desconstrução. No nosso caso, Pulsão de Vida/Pulsão de Morte.

O envelhecimento em si, seria a vitória da desconstrução das células, por exemplo, contra a regeneração. Essa dicotomia entre criar a destruir está em tudo a nossa volta, é só olhar a natureza.

Tenso, né? Kkk

Mas por quê esse papo doido em uma coluna sobre Copa do Mundo? Porque enquanto Pondé resumia que a ideia da Pulsão de Morte era acabar com a vida, com a busca insegura por prazer, eu me lembrei daquelas pessoas das minhas redes sociais reclamando da falta de consciência do povo brasileiro que “se vende pela Copa”.

Leia também: “À nação, sim. Ao Governo, não”. 

Tenho a sensação de que para essa galera, a Pulsão de Morte está vencendo a batalha – e ao dizer isso não falo que essas pessoas estão querendo se matar. Apenas me parece que algum desejo muito grande de matar um lado bom da vida, está se sobressaindo.

Claro que temos que nos preocupar com a política e os rumos que o país tomará nos próximos meses/anos, mas num país/mundo/vida onde o desamparo está sempre rondando, a sensação de ver um chute brasileiro entrando no gol adversário em uma Copa é indescritível. É uma explosão de alegria que nos ajuda a, pelo menos naquele momento, seguir lutando.

Se Freud estava certo, para vencer essa pulsão que fica ali martelando nosso inconsciente, é preciso primeiro saber que ela existe. Assim sendo, vou continuar torcendo muito e curtindo cada segundo da Copa do Mundo de futebol, para quando ela chegar ao fim, eu ter ainda mais forças para lutar contra o que ainda está por vir.

Amanhã, Brasil 2×1 Bélgica.


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