Waltinho Nascimento: “Somos mesmo o país do futebol? Lá dos céus pode vir a resposta”

Já repararam quantos campos de futebol de várzea a gente consegue ver no horizonte das cidades no Brasil?

Acordei às 5h50 tenso. O táxi já havia entrado no condomínio para me buscar e eu estava atrasado e morrendo de sono. Mas não era isso que me tirava a calma e sim a chuva que não cessava havia 72 horas. Abri a janela do quarto e vi aquele céu de filme de terror, cheio de nuvens carregadas.

Comecei a imaginar que provavelmente meu voo seria cancelado. Teria que ser. Como voar naquelas condições?

De qualquer forma peguei o táxi e a cada buraco do caminho em que o motorista passava eu pensava: “Calma, Waltinho, turbulência nada mais é do que um buraco que o avião passa. Não há motivo para ter medo. Fora que o piloto do avião vai tentar desviar dos buracos (nuvens), diferentemente desse taxista.”

Apesar de cansado não conseguia dormir. Na tentativa de tirar minha cabeça do voo comecei a ler meu livro do momento – Febre de Bola, de Nick Hornby – que por sinal se você gosta de futebol eu aconselho demais a leitura.

A forma completamente apaixonada que o escritor inglês fala de suas experiências com o futebol me despertou a pergunta: Nós, aqui no Brasil, somos mesmo o país do futebol?

Peguei o celular e procurei alguma matéria que pudesse me ajudar a responder.

Primeiro li a última atualização do tradicional ranking de torcidas no Brasil e confirmei o que já sabia: em primeiro lugar estava o – rufem os tambores – ”Sem Time”.

Quase um quinto dos entrevistados na pesquisa falavam não torcer para nenhum time ou não se interessar por futebol. Isso deixa o pessoal do “Sem Time” à frente de Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Vasco e cia.

Mas quando menos percebi já havíamos chegado ao aeroporto. Fiz todos os procedimentos e corri para sala de embarque, com a ideia fixa de voltar a ocupar minha mente com futebol e desviar o olhar do céu cheio de nuvens cada vez mais escuras que me esperava em pouco tempo.

Voltei ao celular, à internet, e segui buscando alguma notícia que mostrasse que sim, o Brasil é o país do futebol. Achei outro ranking de uma famosa revista internacional de futebol que listava os maiores clássicos do mundo.

Nele tinha Boca x River, na Argentina. Galatasaray x Fenerbahce, na Turquia. Celtic x Rangers, na Escócia. Barcelona x Real Madrid, na Espanha. Roma x Lazio na Itália. Fui descendo rapidamente para ver apenas na décima posição Internacional x Grêmio, aqui no Brasil.

Frustrado, mais uma vez senti um sono terrível. Antes de pensar em cochilar sou interrompido pelo anúncio de que os passageiros do meu voo, com destino ao Aeroporto Santos Dumont deveriam ir para a fila do embarque. Deus do céu! Sério?

Já na fila, como última tentativa desesperada de não sair correndo e pegar um táxi de volta à segurança do meu quarto, procuro na internet algo mais que possa me dar pelo menos o conforto de que a gente ama mais futebol do que qualquer outro torcedor no mundo.

Encontro mais um ranking. Esse faz uma equação entre a posição da seleção no ranking da FIFA e a população do país, no intuito de saber em que parte do mundo se entrega um melhor futebol com menos pessoas à disposição.

Resultado: Brasil em 116º – leia também: “Que venha o hexa”. 

Desisto! É hora de aceitar a realidade. Eu tenho que sentar nessa poltrona apertada, passar os 45 minutos do voo até o Rio de Janeiro olhando na janela a chuva que caía incessantemente, me segurar com a mão suada de pavor na cadeira enquanto o avião balança e entender que por aqui, o futebol não mexe com o povo como mexe comigo.

O avião aponta na pista. Decola sem muitos sustos. Passa por cima das nuvens. Faz o trajeto em maravilhosos 35 minutos sem praticamente nenhuma turbulência.

Ao começar a se aproximar o pouso em um Rio de Janeiro ensolarado, com poucas nuvens no céu, eu ainda estou tenso, sem conseguir relaxar.

Olho pela janela do avião a bela paisagem da Cidade Maravilhosa e, de repente, uma paz me invade. Mas por quê?

Já repararam quantos campos de futebol de várzea a gente consegue ver no horizonte das cidades no Brasil quando o avião está se aproximando do solo?

Provavelmente em 5 minutos iríamos aterrizar, mesmo assim encostei minha cabeça na janela e tirei aquela soneca gostosa.


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