Waltinho Nascimento: “Torcedor de arquibancada de Alphaville: você é um deles?”

Ao chegarmos nas proximidades do estádio avistamos tudo que esperávamos: fogueteiro, bandeirões, fumaça, pernil assado da Dona Maria…

Era um domingo, final de campeonato paulista, não me lembro se de 1998 ou 1999.

Eu e meus amigos acordamos empolgados mesmo sabendo que nossos pais haviam proibido que nós, todos na faixa de 14 e 15 anos, fossemos ao estádio acompanhar aquela peleja.

A empolgação se dava também por essa proibição. Não dava mais pra ir ao estádio com o papai levando de táxi e ficar em um setor seguro do Morumbi. A gente queria ir sozinho, de arquibancada, no meio da torcida organizada. Não éramos uma turminha de playboys.

Por isso armamos um plano ousado: a gente fala para nossos pais que vamos um na casa do outro, mas na verdade vamos ao jogo!

Logo que acordei comecei a me arrumar. Coloquei gorrinho, aqueles óculos escuros de plástico bem vagabundos que se compra no camelô, calça de moletom e a camisa da torcida organizada. Afinal, eu ia pra arquibancada, tinha que me produzir como tal.

Encontrei meus amigos no ponto de ônibus em frente ao Alphashopping. Pegamos um ônibus até a estação de trem de Barueri. Na estação já começaram a aparecer os primeiros torcedores cantando as marchas das torcidas uniformizadas, provocando o adversário. Com o passar das estações o trem foi ficando cada vez mais cheio de fanáticos. Perfeito! Era exatamente o que a gente queria, o que a gente buscava. Afinal, a gente era esse tipo de torcedor. Cadeira cativa nunca mais!

O caminho do trem foi uma experiência antropológica para a turma. Todo tipo de gente gritando, pulando, se abraçando. Um cara especificamente jamais será esquecido. O Nhaca.

Nhaca estava claramente sob efeito de algum alucinógeno. Ele abraçava a todos quase sem conseguir cantar as músicas. Em determinado momento, veio em minha direção e sem pensar duas vezes, trocou meu gorrinho novo pelo boné suado que usava. Colocou o boné na minha cabeça e ainda me mandou um ¨joia¨. Até isso me fez sentir parte do bando.

Ao chegarmos nas proximidades do estádio avistamos de longe o local onde a festa das organizadas acontecia. Dava para ver que lá tinha tudo que esperávamos: fogueteiro, bandeirões, fumaça, pernil assado da Dona Maria…

Nesse momento era um fato: a gente era parte daquele grupo, nós éramos torcedores de arquibancada!

Ajeitei na cabeça o boné que havia ganhado de presente do Nhaca e fomos empolgados em direção ao portão de entrada. Para quem foi a uma final de campeonato paulista na década de 90, vai entender o que vou falar agora. Depois de subir a alta rampa de entrada da arquibancada, a vista que se tem do estádio é fenomenal. Aquele enorme gramado verde que parece sem fim, a torcida adversária ocupando a metade do anel superior do Morumbi em frente a você – sim, naquela época tínhamos estádio com torcida dividida.

Estava tudo perfeito, entramos bem no momento que a torcida cantava a famosa música O Campeão, de Neguinho da Beija-Flor, que em determinada parte da letra diz: ¨porque eu não quero, cadeira numerada, vou sentar na arquibancada pra sentir mais emoção”. Cantamos junto, gritando essa parte do fundo dos nossos pulmões.

De repente ouço uma gargalhada alta vindo lá da frente. Não consegui ver exatamente quem foi que gargalhou, mas deu pra entender o que falou em seguida de forma bem clara:

¨HAHAHA, chegou a playboyzada!¨


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