Waltinho Nascimento: “Calma, é só futebol!”

Por que gostamos de futebol? Talvez a resposta a essa pergunta não tenha nada a ver com o esporte mais popular do mundo

Dona Delfina, minha avó

Por quê a gente escolhe torcer com dedicação e fidelidade absoluta para alguém, mesmo que essa seja uma relação que na maioria do tempo tenhamos muito mais sofrimento do que felicidade?

É só reparar no clima de um estádio de futebol. Se você costuma ir ao estádio ver seu time jogar sabe que se olhar para o lado vai ver que o torcedor, em geral, está tenso, reclamando, xingando, para, talvez, no fim da partida, em caso de uma vitória convincente – porque se ganhar jogando mal provavelmente ainda verá o povo insatisfeito – ver o cara ao seu lado sorrindo. (Leia também: “Um novo jeito de torcer”)

Não lembro com precisão o dia que comecei a gostar de futebol mas lembro a primeira vez que fui ao estádio. Meu pai me levou a um Morumbi completamente lotado em um jogo de semifinal, porém não tenho praticamente nenhuma lembrança de como foi aquela partida. O que me vem à cabeça quando lembro daquele dia era a discussão interminável entre os torcedores que ficavam a frente, de pé, e os que ficavam atrás, sentados.

“Senta aí! Você não pagou mais que a gente, também quero ver o jogo!”, gritavam os de trás.

“Levanta aí! Você não tá no teatro” retrucavam os da frente.

E esse clima todo me lembra muito a minha vó.

De forma breve, minha vó era praticamente um estereótipo: italiana, brava, baita cozinheira que recebia a família todo domingo para o almoço. E claro, palmeirense doente.

Minha mãe sempre me contou que viu durante toda sua vida seus pais brigando em dia de clássico Corinthians x Palmeiras. Meu vô, corintiano, gostava de tirar sarro do Palmeiras.

Na minha infância (já sem meu vô presente) quando o Palmeiras perdia, ninguém podia ir falar com a Dona Delfina Bombonato. Até os quadros, com fotos dos plantéis dos títulos do Palmeiras na parede da sala, pareciam ficar mais empoeirados.

Sempre achei que a gente aprende a gostar de futebol por influência direta do pai – que é quem normalmente leva a gente ao estádio –  mas recentemente minha mulher, psicóloga, me trouxe uma teoria de algo que pode ter me influenciado mais:

Justamente aquelas tardes de domingo em que o futebol ditava o clima dos almoços em família. Se o Palmeiras ganhasse a “Delfa” ia estar mais calma. Mas e se perdesse? Era legal também. Todo mundo se divertia com o mau humor dela.

Recentemente fui a uma festa de aniversário que acontecia no mesmo momento da final da Champions League, o maior torneio de clubes do planeta. Naturalmente a maioria dos homens teve dificuldade em focar na festa enquanto a TV do salão mostrava Cristiano Ronaldo destruir a Juventus de Turim.

Irritado por ver uma lenda, o goleiro italiano Gianluigi Buffon de 39 anos, perder provavelmente a sua última chance de vencer a “Champions”, decidi ir até o hall ao lado da sala onde víamos o jogo pegar uma cerveja, e percebi que na parede havia um quadro da Seleção Brasileira campeã de 1970. Parei e enquanto apreciava a imagem, um rapaz que eu não conhecia passou por mim e disse: “Calma, é só futebol!”.

Sorri, olhei de novo para aquela bela foto e pensei: É nada, parceiro.



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