Wilson Medeiros: “Do século do EU ao século do NÓS”

A psicanálise permitiu perceber como o ser humano é dominado pelo desejo e como isso molda o seu comportamento, hoje, a realidade nos mostra que ser dominado pelo desejo pode levar à alienação

Recentemente, assisti ao documentário “O Século do EU”, de Adam Curtis. Intrigante, cativante e envolvente, a obra analisa como os governos ocidentais e as corporações se utilizaram das teorias da psicanálise para usar o inconsciente em sua irracionalidade e incentivar a economia e o mercado no desenvolvimento de uma sociedade de consumo para, também, dentro do possível, controlar e manipular os desejos das grandes massas.

O mundo dos negócios e político tem usado técnicas psicológicas para ler e incentivar os desejos do público, a fim de tornar seus produtos ou discursos sedutores para seu público alvo. Da publicidade ao coaching, a mente humana é esquadrinhada em cada um de seus cantos com o propósito de poder conhecer mais e melhor tudo aquilo que leva à decisão de consumo.

As palavras de Paul Mazur, um importante banqueiro de Wall Street, que trabalhava para o grupo Lehman Brothers, são significativas e até mesmo chocantes: “Temos que mudar a América de uma cultura de necessidades para uma cultura de desejos. As pessoas devem ser treinadas a desejar, querer coisas novas, mesmo antes dos antigos serem totalmente consumidos […] os desejos do homem devem ofuscar suas necessidades”.

O documentário nos revela como as nossas vidas são impactadas pela propaganda e como os governos e as empresas usam esses discursos subliminares para atingir seus objetivos, sejam eles políticos ou comerciais. Mas os avanços não param e de lá para cá, no Século do NÓS, o que estamos assistindo e observando de forma surpreendente é a velocidade das mudanças de modelos de negócios e do comportamento das pessoas. Podemos dizer que vivemos em um mundo muito mais conectado pelas evoluções da era digital e capaz de se beneficiar com a imensa quantidade de dados disponíveis para o usuário do universo virtual, sendo que apenas estamos acessando o poder da inteligência artificial e da manipulação de enormes quantidades de dados (big data).

Nesse contexto, pese a previsível perda de vínculos por conta da tecnologia, percebe-se positivamente a ampliação de consciência –  política, econômica e social – na direção de modelos  mais colaborativos, compartilhados. Independentemente de nossa vontade, o que se vê é uma sociedade tentando encontrar novas maneiras de harmonizar aspectos contrastantes ligados à competitividade global, ao consumo, à agressividade e à intolerância, ao meio ambiente, à sustentabilidade.

Vale registrar que o “bombardeio” das demandas de consumo não estimula somente ao comprar, ao adquirir, ao ter, mas de alguma forma ou em mensagem subliminar acaba estimulando a ânsia frenética em adquirir informações e conhecimentos por novidades ou alterações em produtos e serviços já existentes.

O padrão de comportamento voltado para o consumo é confrontado pela necessidade de dar sustentabilidade à nossa existência individual e coletiva e torna cada vez mais necessário, antes de consumir, articular o binômio necessidade x desejo. O Lowsumerism, movimento mais recente de contracultura, é um bom exemplo de aplicação dessa articulação que vem ganhando espaço consciente ou inconscientemente no pensamento popular.

A consequência é que há uma enormidade de pessoas que, de fato, não percebem, ou melhor, não sentem o tempo passar e, de repente, se assustam ao perceber que estão perto do final do segundo tempo e que o resultado arrisca se voltar contra elas. Quando o balanço se refere à área do conhecimento da vivência e da experiência de vida, a conta se torna negativa ao demonstrar que ignoramos o maior tesouro de ferramentas que se encontra em nós mesmos: a nossa essência.

Nunca é tarde para estarmos vigilantes e perceber que dispomos de uma força interior para enfrentar momentos difíceis, mudanças, planejadas ou não, e para nos impulsionar na direção de escolhas que seguem as direções e sentidos sintonizados na dimensão de fazer parte de um todo universal.

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COMENTÁRIOS

  • A coisas q vemos mais não inchergamos..
    Entramos no MATRIX….
    Não como escolha de uma ou outra pílula..
    E sim deste universo q nos cobra e nos direciona empurra para o q precisamos, e especialmente pelo o não necessário …
    Sem perceber ficamos doentes …
    Ex :Anciosos ,deprimidos .TEG.TOC,etc
    E raro vc ver hoje uma criança feliz por ganhar uma bola ,brincar de pega pega…Jiu Ìuu o
    O tempo deles vão passar 4 × mais rápido q o nosso…
    Sem tempo de contemplar o Belo…
    A tecnologia e paradoxal nos da conhecimento e nos captura a vida natural e o mais importante nosso precioso tempo…
    Nossos filhos já tem mente acelerada ,
    Será q somos ou estamos preparado pra tudo isto com está velocidade e pressão ???
    Eu não estou…..
    TUDO DE MAIS FAZ MAL……
    Mesmo coisas boas….
    Somos lançados numa arena de gradiadores sem treinamento e armas…
    Mais temos algo q nos pode salvar ,Fè esperança de um lugar mais brando e humano …
    Onde o pouco e muito e seremos gratos e satisfeitos
    Onde a alegria o amor confiança e a paz Não
    Será efêmera….
    Esperança e fé e o q nos resta…
    Labor e atitude e um bom concelho ..
    Q Deus esteja conosco antes hoje e sempre ….
    Obrigada Wuilson por tua inteligência ,sabedoria sensibilidade ….Ver o óbvio e fácil..
    Enchergar e tocar o invisível e pra poucos ..
    Obrigada por existir pois muitos cegos te enchergarão..👀

    • Tudo isso (da tecnologia) ainda é muito novo e andamos apressados na evolução do conhecimento. Socialmente, ainda estamos descobrindo o tempo que a tecnologia nos consome e que deveria (?) nos consumir. Creio que não tão tarde, ela estará cada vez mais naturalizada e arraigada, dos weareables aos insedables. Mas vamos deixar ao futuro o que é do futuro. Ao hoje toda a nossa presença e consciência. Abraço, Eliane!

  • Sim! Caminhamos para um Feudalismo cibernético. Recentemente assisti a um filme que bania a marketing da sociedade, dessa forma diminuindo esses efeitos desegenerativos.

  • Parabéns pelo artigo Wilson, traz a tona tema de notória relevância para reflexão. Achei muito interessante esta passagem do artigo que passo a comentar:

    “Temos que mudar a América de uma cultura de necessidades para uma cultura de desejos.

    Sobre este trecho, em parcas palavras, torna-se importante refletir sobre o consumo desenfreado, em contraponto, poderíamos pensar no consumo de roupas, onde, algumas pessoas já são adeptas ao minimalismo, consumindo o mínimo possível, embuidas de um sentimento intimamente ligado ao estilo de consumo racional.

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