A fé que move Alphaville

Quase 100% dos moradores professam alguma fé. Desses, 80% têm religião, e 17,4% acreditam em algo superior, ainda que não sigam nenhum credo específico. Confira o resultado da pesquisa feita pela VERO

Capinha chamada

O Brasil é a maior nação católica do mundo. Seis em cada dez brasileiros afirmam ser católicos. Ou seja, 123 milhões de pessoas. Nas últimas duas décadas, no entanto, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população católica brasileira diminuiu um ponto percentual ao ano, passando de 83,3% para 64,6%. No mesmo período, os evangélicos galgaram pouco mais que meio ponto ao ano, saltando de 9,1% para 22,2%. Se esse padrão continuar se repetindo, até 2040 o país se transformará em uma nação de maioria evangélica.

Enquanto o país assiste a esse processo de mudança de religião, Alphaville pode estar mais próximo dessa realidade. No último mês, uma enquete da VERO com 700 moradores do bairro revelou que 51,2% da população da região são evangélicos. Vale registrar que a enquete foi direcionada, por meio do site e redes sociais da VERO, para levantar um dado específico sobre fé. Ou seja, ela depende de engajamento e não usa metodologia científica como a do IBGE.

Ainda segundo a enquete, os católicos somam 27,1%, e o terceiro grupo religioso mais presente é o espírita, com 11,6% (confira o gráfico na pág. 33). Outra consideração importante a se fazer é que o grupo de evangélicos é segmentado. Ou seja, os adeptos estão distribuídos em mais de dez igrejas diferentes. A maior delas, a presbiteriana, conta com 19% da população evangélica.

* A pesquisa da VERO, feita com 700 moradores do bairro, foi direcionada por meio do site e das redes sociais. Ela depende de engajamento e não usa metodologia científica como a do IBGE.

* *Os evangélicos são divididos entre as seguintes igrejas: Adventista, Igreja Batista, Igreja Congregacional, Igreja Luterana, Igreja Metodista, Igreja Presbiteriana, outras evangélicas de missão, Assembleia de Deus, Igreja Congregação Cristã do Brasil,  Igreja Deus é Amor, Evangelho Quadrangular, Universal do Reino de Deus, outras evangélicas pentecostais e neopentecostais

SER OU NÃO SER?

De acordo uma pesquisa da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), 90% dos ateus consideram a religião um mal. Há ainda pesquisadores que foram mais a fundo e tentaram provar, cientificamente, a relação entre ateísmo e inteligência (veja mais aqui).

Mas isso não é o que todos dizem – muito menos no que acredita a maioria por aqui. Chama a atenção, na enquete realizada pela VERO, que 96,1% das pessoas têm fé. Sendo que, dessas, 78,7% professam alguma religião, e 17,4% acreditam em algo superior, ainda que não sigam nenhum credo específico. Apenas 3,9% dos pesquisados se disseram ateus.

De acordo com o sociólogo de religião Francisco Borba, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a função básica das religiões é dar significado para a vida no campo terreno e, de certa forma, responder à seguinte questão: o que irá acontecer comigo a partir da minha morte? “Elas orientam as principais normas de conduta que a sociedade tem de seguir para tornar as pessoas felizes”, afirma ele, coordenador do Núcleo de Fé e Cultura da PUC. Segundo alguns estudos, a religiosidade ainda pode garantir mais saúde e felicidades para as pessoas (veja os boxes ao lado).

Por aqui, 73,6% dos moradores dizem já ter vivido uma experiência transformadora em uma religião. Católico, o empresário do ramo digital Roberto Wajnsztok de Oliveira, que frequenta a Igreja Nossa Senhora de Lourdes (Gruta) duas vezes por semana, é um deles. Há três anos, ele vivia preocupado ao assistir ao processo de depressão profunda que tomara conta da mãe, Sandra Maria, depois de o marido sofrer um enfarto. “Passei a pedir a Deus pela saúde dela. Pedi que Ele fizesse minha mãe enxergar a fortaleza ao lado do Senhor”, conta Roberto, de 37 anos.

Um ano e meio depois, Sandra passou a dedicar a vida ao próximo na Igreja, o que a ajudou a ficar livre da doença. “Hoje ela é membro de uma comunidade de libertação, no Rio. Participa de atividades de oração de cura, de partilha e leitura da palavra.” Fiel da paróquia, Roberto também ministra em um grupo de oração da Renovação Carismática Católica.

*A pesquisa da VERO, feita com 700 moradores do bairro, foi direcionada por meio do site e das redes sociais. Ela depende de engajamento e não usa metodologia científica como a do IBGE.

Outra que teve a vida transformada pela fé foi a também católica Nancy Stockunas, 59 anos. Aos 27 anos, ela estava tentado engravidar fazia três anos. Os médicos diziam que havia algum problema de saúde, mas não conseguiam identificar. No dia de Nossa Senhora Aparecida – de quem ela é devota até hoje –, enquanto ouvia um programa de rádio sobre a aparição da imagem da santa, ela pediu, com muita fé, que fosse agraciada com a maternidade. Nove meses depois, nasceu seu primeiro filho.

Nancy é frequentadora da Paróquia do Bom Pastor, em Santana de Parnaíba. A forma que encontrou de agradecer a graça conquistada foi contribuindo com a comunidade. “Fiz parte do grupo de oração e hoje faço parte do grupo de leitores da igreja. Estou estudando para ser catequista. Hoje há poucas catequistas, e muitas crianças para serem catequizadas. Vou ajudar dessa maneira.”

Desse mesmo grupo de oração do qual Nancy participou também nasceu outra forma de ajudar ao próximo: a Comunidade de Amor Rainha da Paz, organização que atende crianças carentes com deficiências múltiplas em Santana de Parnaíba. “Hoje a Rainha da Paz é a principal destinação das nossas arrecadações”, conta.

Já na Nossa Senhora de Lourdes, a Associação Santa Terezinha, em Carapicuíba, é uma das entidades que recebem ajuda, dentre as mais de dez associações beneméritas atendidas pela Igreja, de acordo com o padre Ubirajara Vieira de Melo.

O Semeador, principal representante do espiritismo na região, também tem na assistência social o principal destino de suas arrecadações. “Temos o Centro de Assistência Social, na Fazendinha, que atende ao todo 22 projetos, que vão de ajuda com alimentos a famílias em estado de vulnerabilidade a projeto de música com jovens carentes”, explica o médium Amauri Gimenez, presidente do Semeador.

Mas não é só de assistências a pessoas carentes que vive a religião. Em Alphaville, fato novo, é cada vez maior o socorro prestado por comunidades religiosas a moradores de classe média-alta. O momento econômico e político conturbado pelo qual o país passa tem revelado situações como a presenciada pelo pastor Hilder Stutz, líder da Igreja Presbiteriana de Alphaville (IPAlpha). Recentemente, ele se espantou com a situação da família de um empresário que vivia num condomínio residencial da região. “Havia eco na sala, o sofá estava escorado por dois tijolos, a energia fora cortada por falta de pagamento e o carro estava com busca e apreensão decretada”, enumera ele. “A empresa dele havia falido. Pagamos as contas de energia em atraso, um aluguel em um apartamento pequeno para a família se mudar e ajudamos na compra de supermercado.” Segundo o líder da IPAlpha, nunca foram tão acentuados casos de alto executivos desempregados na região. “Nos últimos três anos, esse tipo de atendimento que fizemos ali aumentou dez vezes.”

* A pesquisa da VERO, feita com 700 moradores do bairro, foi direcionada por meio do site e das redes sociais. Ela depende de engajamento e não usa metodologia científica como a do IBGE.
* A pesquisa da VERO, feita com 700 moradores do bairro, foi direcionada por meio do site e das redes sociais. Ela depende de engajamento e não usa metodologia científica como a do IBGE.

MAIS MOTIVOS

Além da fé, quem procura uma religião também busca integração. “Todo candidato a fiel anseia reconhecimento perante a comunidade”, afirma Rafael Rodrigues da Costa, sociólogo especializado em estudos sobre religião.

“É nessa demanda que as igrejas, principalmente as neopentecostais pautadas na teologia da prosperidade, segundo a qual a melhora do padrão de vida é justificada pela benção de Deus, encontram solo fértil”, diz.  Essa ramificação da Igreja evangélica surgiu nos anos 70, oriunda das igrejas evangélicas tradicionais e do grupo pentecostal.

Em Alphaville há também uma explicação histórica para o fenômeno. É que por aqui as igrejas evangélicas vieram com mais força no final dos anos 90. Nesse período, um grande número de pessoas que se mudou para a região – por oferta de trabalho ou para viver com qualidade de vida – passou a procurar espaços comunitários onde pudessem conhecer pessoas. “Isso formou o terreno favorável para a expansão das igrejas evangélicas aqui”, explica Rafael.

A IPAlpha – primeira evangélica tradicional a se instituir em Alphaville, há 25 anos, e dona da maior representatividade entre evangélicos na região – reconhece o papel de pertencimento conferido por ela e seus pares. “Igrejas e escolas vinculam pessoas à comunidade; as fazem criar raízes”, diz o pastor Hilder Stutz. A instituição está construindo uma nova unidade em uma área de 6.000 m², no Tamboré, a ser inaugurada em 2018. Em uma região como Alphaville, carente de centros comunitários gratuitos e clubes, as igrejas evangélicas estrategicamente atraem o público também por meio de programas de entretenimento.

Membro da IPAlpha, a psicóloga Ana Lanças é uma delas. “Na igreja, participo de projetos sociais com crianças, presto atendimento psicológico para a população carente e participo do coral e do coro feminino. Também já dei aula no ministério infantil”, conta Ana, de 32 anos.

Os templos religiosos da região, segundo o especialista em religião Rafael, funcionam, também, como espaços de networking.

TRÂNSITO RELIGIOSO

Os casos como o de Ana, que vai à igreja desde os dois meses de vida e frequenta a mesma religião há muito tempo, são maioria por aqui. No entanto, experimentar religiões é um traço marcante da fé manifestada pelo brasileiro. Católicos que migram para o espiritismo, adeptos de denominações de matriz africana que se tornam evangélicos e a reversão ao islã são alguns dos exemplos do vaivém que compõe o mapa da fé do país. Em Alphaville, pouco mais de um terço da população (37,4%) já experimentou outra religião na vida. Até os 25 anos, a fisioterapeuta Camila Batista Torres Martins, 32, havia frequentado templos católicos e evangélicos. Em nenhum deles, no entanto, se sentiu plenamente confortável. Certo dia, depois de já ter lido livros romanceados sobre espiritismo, resolveu visitar o centro espírita O Semeador. E nunca mais abandonou. “Aprendi que não sou perfeita e que estou nesse plano para evoluir.”

Para o sociólogo da religião Francisco, da PUC, a pluralidade de crenças é importante. “Seja qual for a religião, a função básica dela é dar orientação para a vida”, diz. Camila concorda: “Ganhei paz de espírito”.

Com a pesquisa feita pela VERO, a diversidade da fé na região ficou evidente. E, claro, a importância de respeitar todo tipo de escolha.

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