As famílias no Brasil estão mudando… e por aqui?

A VERO conversou com diferentes modelos de família e fez uma enquete com 500 leitores para entender o cenário. Confira!

Nesta grande família, Amanda e Fábio uniram os filhos de relacionamentos anteriores numa casa só. Da esquerda para a direita: Giulia, Leonardo, Amanda, Fabio, Davi, Isabella, Henrique e Lucas.
Nesta grande família, Amanda e Fábio uniram os filhos de relacionamentos anteriores numa casa só. Da esquerda para a direita: Giulia, Leonardo, Amanda, Fabio, Davi, Isabella, Henrique e Lucas.

Você sabia que, no Brasil, um em cada quatro casamentos termina em separação? Se olharmos esse dado isoladamente, a coisa pode parecer um pouco trágica. Mas a boa notícia é que a vida é feita de recomeços, e atualmente 4,4 milhões de lares são compostos por casais que se separaram anteriormente ou são viúvos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse é o novo retrato da família brasileira. E mais: esses novos casais já não veem mais – pelo menos não tanto quanto antigamente – a necessidade de oficializar a união. No país todo, segundo o IBGE, 36,4% dos casais não são casados formalmente. E há 2,5 milhões de enteados vivendo com padrastos ou madrastas.

Esse é mais ou menos o caso de Amanda Ciccarino Borges. Aos 36 anos, ela já era mãe de Lucas, de 19, e Leonardo, 12. Foi quando conheceu Fabio. Ele também tinha filhos do casamento anterior. Três, mais precisamente: Giulia, 18; Isabella, 15; e Henrique, 11. Em pouco tempo, eles decidiram se juntar – e vir morar em Alphaville, para garantir qualidade de vida para a extensa prole. No caso deles, a união foi oficializada no civil. E ainda tiveram o último herdeiro, Davi – hoje com 1 ano e 9 meses.

“A verdade é que ninguém achava que isso fosse dar certo. Mas hoje, nossa casa é uma alegria. Fomos indo aos poucos, e tudo deu certo. A gente almoça e janta todo mundo junto, todos os dias, e cada um tem seu dia de lavar a louça. Eu me dou muito bem com as meninas, que já são adolescentes. Sou eu quem conversa, quem leva ao médico. Os meninos, que têm a mesma idade, são superamigos. E não tem essa de meus filhos e seus filhos… São todos nossos”, conta, radiante, a advogada, que ainda abriga em casa um labrador, três calopsitas e um maltês.

Amanda também faz parte de outro pequeno grupo – no Brasil e em Alphaville –, que é o de famílias com mais de seis habitantes dividindo a mesma casa. Por aqui, de acordo com uma enquete da VERO (feita via SurveyMonkey com 500 leitores), 3% dos lares têm mais de seis habitantes.

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Da esquerda para a direita: Mara Pallotta e o marido, Fabio Marão, e os cachorros Aloha, Tango e Maui

No país, dois grupos crescentes são os que mais chamam a atenção em relação ao número de habitantes da casa: o de casais sem lhos e o de famílias unipessoais – os solteiros. Para se ter uma ideia, nos últimos cinco anos, segundo o IBGE, o número de casais sem lhos teve um aumento mais significativo, de 15,2% para 19,9%. Em contraposição, diminuiu o número de casais com lhos, que foi de 50,3% para 42,3%. Já o número de pessoas morando sozinhas, as chamadas famílias unipessoais, saltou de 10,4% para 14,6%.

Por aqui, os números são um pouquinho diferentes. De todos os respondentes da enquete, os casais sem filhos representam 16,1%. Os casais com filhos são a grade maioria: 60,4%. As famílias unipessoais somam 5%.

Mara Pallotta é uma das que decidiram não ter filhos. “Casei pela primeira vez com 21 anos. Não tenho a menor ideia do porquê, mas nunca tive vontade de ter filhos. E olha que eu sempre gostei de brincar de boneca na infância”, diverte-se. “Na verdade, na minha vida, sempre priorizei estudo e trabalho. Quando casei, tinha acabado de me formar. Era professora de ballet e só queria dar aula”, explica. “O problema é que meu primeiro marido queria ter filhos. O segundo já tinha um filho. O atual também não queria e ama cachorros. Pronto, deu certo”, ri.

Isso porque, no lugar de filhos humanos, ela decidiu ter filhos cachorros. Três: Tango, Maui e Aloha. “As pessoas me olham meio estranho. Acredito que ser mãe é legal. Mas escolhi os meus filhos”, diz.

FAMÍLIA DE UM SÓ?

Já Lucas Martins, 34 anos, morador da região do 18 do Forte Empresarial, é um dos representantes das famílias unipessoais da região. “Morei a vida toda em São Paulo. Foram 29 anos ao lado da Marginal Tietê. Trabalho na área comercial e já tenho um dia a dia bem dinâmico, movimentado. Nos finais de semana, quero abrir a janela e ver árvores. Por isso vim pra Alphaville, em busca de sossego”, conta. A diferença é que Lucas pretende passar para o outro lado da estatística em pouco tempo: “Eu namoro, atualmente. Estamos noivos. Ano que vem é o casório. Ela é de São Paulo também, mora com os pais, mas eu a convenci, e ela vem para cá. Vamos construir nossa família aqui”, diz.

Família Unipessoal é o termo do IBGE para quem mora sozinho, como Lucas. Em breve, ele vai mudar de lado nas estatísticas: "O casório é o ano que vem!"
Família Unipessoal é o termo do IBGE para quem mora sozinho, como Lucas. Em breve, ele vai mudar de lado nas estatísticas: “O casório é o ano que vem!”

Destaque para uma particularidade do nosso bairro: além dos 60% de famílias que compreendem casal com filhos, pelo menos 5% contam também com outros parentes morando junto, como avós, genros, noras. As mães solteiras são apenas 5%. E os homens solteiros não ultrapassam 1%. Menos de 1% disse que divide a casa com amigos. No Brasil, nos últimos cinco anos, o percentual de mães solteiras (mulher sem cônjuge, com filhos) caiu de 18,2% para 16,3%. O número de pais solteiros cresceu bem pouco, de 3,1% para 3,7%.

Já a casa de Matheus Perez, de 21 anos, é mais tradicional: “Desde que me entendo por gente, moro com meus avós, meus pais e meu irmão. Meus tios e tias, com meus primos, moravam na rua de trás. Mudaram-se faz uns cinco anos”, conta.

“Sempre moramos com meus avós paternos. Meu avô faleceu no ano passado, ficou só a minha avó. O que permitiu isso foi a proximidade que minha mãe tem com os sogros”, explica.

E completa: “Pra mim, sempre foi bom. Criei laços muito fortes com meus avós. Sempre passamos todas as datas e comemorações juntos. Os meus pais sempre mimaram a gente, claro, mas os meus avós… Acho que não tem nada como mimo de avós. Nem imagino como vai ser quando a gente casar”, ri.

Já Ana Maria Diaz tem um caso um pouquinho diferente. Natural da Argentina, ela veio para a região ainda nova, há 30 anos. Chegou com o marido, o pai dele e os irmãos. Acontece que o pai faleceu, e os meninos decidiram continuar a dividir o mesmo teto. “Eu sou a esposa do mais velho. Temos um filho de 8 anos. O irmão do meio do meu marido também é casado, mas não tem filhos, e mora junto com a gente. Já o irmão mais novo ainda é solteiro”, relata.

“A casa é bem grande, e durante a semana, cada um tem a sua rotina, e a gente quase não se encontra. Mas fim de semana é sagrado. A paixão pelas motos une toda a família [os três irmãos são apaixonados por Harley Davidson].”

“Pra mim, é maravilhoso que meu filho more com os tios. Gera cumplicidade. Sempre digo que ele tem os pais para educar e os tios para mimar. Acho que esse modelo de família demonstra que, inconscientemente, estamos resgatando o conceito de cuidar, de família, de ter um olhando pelo outro”, diz.

A antropóloga Isabela Oliveira concorda: “Temos ouvido falar muito sobre o conceito de coligação atualmente. Mas, na verdade, ele é bem antigo; nas tribos indígenas e periferias, por exemplo, ele é supernatural. Isso acontece quando familiares que não os pais se tornam todos corresponsáveis pela educação das crianças”, diz.

“A verdade é que estamos vivendo um momento único na formação da sociedade. Ao mesmo tempo em que há isso do resgate de tradições e hábitos, há a criação de comportamentos completamente novos”, completa.

Filhos, pais e avós na mesma casa. Da esquerda para direita: Joel e Leia (acima), Lucas Ivonne e Matheus (abaixo)
Filhos, pais e avós na mesma casa. Da esquerda para direita: Joel e Leia (acima), Lucas Ivonne e Matheus (abaixo)

DUAS MAMÃES

Moradora de longa data da região, Erica Nogueira, de 36 anos, é o exemplo vivo dessa nova realidade. Ela também é divorciada e tem um filho do primeiro casamento. Seu relacionamento atual, no entanto, é homoafetivo: “Estou há cinco anos com a Bruna. Moramos junto há três. Ela, eu e meu filho, João Victor, de 11 anos”, conta.

“Muitas pessoas veem meu relacionamento como um choque. Mas o João Victor, não. Ele trata de forma natural. Ele tem uma relação de mãe com a Bruna. Como uma segunda mãe. Temos guarda compartilhada, e ele vê o pai com frequência”, lembra. “Nós até nos programamos para sentar e conversar com ele. Mas ele é muito inteligente, e quando fomos fazer isso, já sabia, com uns 8 anos. Nossa preocupação sempre foi ele se sentir confortável com a relação. E foi um processo natural”, explica.

“Não sinto ainda que o futuro vai ser sem preconceito. Infelizmente, não só na questão de homossexualidade, ainda há muito preconceito. Quando comecei a me relacionar com a Bruna, minha irmã mesmo me questionou. Mas acredito que os jovens, minha geração e a próxima, a do João Victor, vão ter maior entendimento. As escolas e os órgãos responsáveis ainda não estão preparados. Mas introduzir isso na educação seria ótimo”, finaliza.

Com 11 anos, João sempre levou o relacionamento da mãe Erica, e sua esposa, numa boa
Com 11 anos, João sempre levou o relacionamento da mãe Erica, e sua esposa, numa boa
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