Bia Garbato: “#inveja”

Os sentimentos na era digital: não vale a pena se definir pelos outros

Inveja é um sentimento difícil de se falar a respeito. Sentir inveja é feio, é mal, é para os outros. Invejosa eu? Jamais. Ocorre que invejar é humano. Por exemplo:

Aquela amiga que adora tá indo pra Disney enquanto você tá com tendinite no cotovelo por conta do mouse. Vai com Deus, amiga querida, tomara que você tome um picolé com orelhinhas e vomite na Space Mountain. #invejapesada

Por outro ângulo: aquela mesma amiga que você adora está indo pra Disney, enquanto você tá tomando anti-inflamatório pra lesão por esforço repetitivo. Você adoraria estar na situação dela, mas deseja que ela aproveite bastante, poste fotos (não muitas) e traga dicas para o dia em que você for visitar a Minnie. #invejalight

O marido da sua amiga acorda cedo no sábado para ficar com a filhinha. Além de dar pra ela uma frutinha (ter o saco de cavucar um mamão e parcelá-lo em 35 colheradinhas), assiste Patrulha Canina cantando a musiquinha. No mesmo sábado, o seu marido acorda lá pras 11h depois de você abrir a cortina e chamar sua filha para batucar um tambor na orelha dele.
#invejamórbida

Outra visão da mesma história: o tal marido da sua amiga acorda cedo no sábado, enfrenta o mamão e ainda canta: “Marshall, Rubble, Chase, Rocky…!” O seu marido ronca tão alto que dá pra ouvir da garagem do prédio e a sua filha está há uma hora assistindo Youtube. Mas, então, você pensa: o marido dela reclama quando ela deixa uma xícara de café na sala e às vezes dá um toque que ela podia se arrumar um pouco mais. Ok, #nemtantainvejaassim

O Instagram devia se chamar Invejam. A gente destrava o celular e é automático, damos uma geral na rede social. Quase entediados, vamos rolando a tela e às vezes damos duas batidinhas para curtir a foto de mesversário do bebê de uma amiga. Mas o problema não é esse. O problema é que você tá besuntando corretivo numa espinha do mal que surgiu no seu queixo e uma conhecida aparece deslumbrante numa foto, com o cabelo loiro com ondas “bem naturais”, com uma vista linda atrás (Salvador? São Francisco?) e, para completar, com um namorado novo que lembra vagamente o Cauã Reymond. Você olha a barriga do seu marido, olha a do Cauã, dá um like para parecer superior e deseja que o silicone dela exploda.

Mas é tudo uma questão de ponto de vista. Se você se compara com aquela sua amiga que tem uma casa linda, com 6 quartos, um quintal enorme, com espécies raras de bromélias, você sente que mora numa barraca de camping. Mas se você pensar bem, deve ser punk cuidar dessa casa e gastar mais com o jardineiro do que com você.

A verdade é que bom mesmo é valorizar o que a gente tem, quem a gente ama e, principalmente, quem a gente é. Não vale a pena se definir pelos outros. Por que a real é que, enquanto você tá murchando as bromélias da sua amiga com os olhos, ela pode estar desejando, quem sabe, escrever uma crônica como você. #in-ve-je-me

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