Bia Garbato: “O condomínio em quarentena”

Chegou o supermercado. E a peixaria. A feira. E a padaria! Acho que vou me acostumar com esse esquema.

Todas as manhãs toca o meu despertador. É difícil acordar com tanto silêncio. Coloco o traje oficial do bairro: roupa de ginástica. Como um mamão com granola, coloco a máscara combinando com a legging e bora pra rua! Espaço, verde, sol, era disso que eu estava precisando. Cruzo com um vizinho. Trocamos um abafado “bom dia” e um sorriso só percebido pelos olhos apertados pelas bochechas. Sigo. Um segurança passa de moto, de máscara preta e capacete, impossível reconhecê-lo! Mas ele faz um aceno vigoroso que denuncia: é o Nunes! Volto porque ainda tenho ginástica na garagem. O personal respeita o distanciamento, mas não respeita o meu cansaço. É agachamento, flexão e abdominal para queimar o bolinho de todo dia.

Meu filho aproveita a minha saída e vai andar de bicicleta. Está adorando sua máscara do Batman que comprei na banca de jornal. Os parquinhos estão fechados, mas os terrenos baldios viraram a grande diversão.Dou uma checada na internet. A coisa segue feia, mas tento manter a fé. Toca o telefone. Chegou o supermercado. E a peixaria. A feira. E a padaria! Recebo tudo na porta de casa. Acho que vou me acostumar com esse esquema. Levo as compras para cozinha para a festa do álcool spray.

Vou andar com minha cachorra. Xi, tenho que voltar. Chegou a van do pet shop. Amora está precisando de um penteado novo.

Aproveito o almoço com meu marido e meu filho no meio da semana. Coisa rara! Tem suas vantagens estarmos todos em casa.

Coloco meu filho na homeschool e vou ao drive thru do shopping. Tá chegando seu aniversário e encomendei um presente. A festa vai ser no Zoom. Novidades da quarentena… Quando entro no condomínio, o segurança mede minha temperatura: 36,1. Ufa! Aperto o dispenser de álcool gel e passo nas mãos, na direção, no câmbio… estou tão doida que só faltou passar dentro do porta-luvas!

Antes de enlouquecer peço meus florais na farmácia. Não dá para passar a quarentena sem uma ajudinha. Minha médica me passou uma receita on-line e eu encaminhei para uma das farmácias da região que se rendeu ao delivery. Minha mãe aparece para uma visita. Ela no carro, eu na garagem. Nos sentimos seguras em todos os sentidos. É muito bom vê-la, mesmo que dessa maneira.

Vou tomar um café na varanda na companhia das maritacas e procurar minha coluna na revista Vero que acabou de chegar! Depois desse ato individualista, faço questão de ler todas as notícias do bairro.

Fim do dia. Vou assistir ao pôr do sol na frente de casa. Está cada vez mais lindo na quarentena. Mais uma vez vejo os vizinhos caminhando e isso ameniza meu isolamento. Vou dormir. Rezo para encontrarem a vacina para o Covid-19 e agradeço o privilégio de morar aqui.


 

Bia Garbato é publicitária, locutora e cronista. Ela escreve semanalmente no site da Jovem Pan e no seu Instagram. Leia @biagarbato

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