Cuidar do cuidado!

Outro dia, eu estava no restaurante e chegou uma jovem senhora com uma menina de uns 10 anos de idade. Corria de lá para…

Outro dia, eu estava no restaurante e chegou uma jovem senhora com uma menina de uns 10 anos de idade. Corria de lá para cá, pulava, derrubava coisas, gritava, ligava o tablet dela com volume bem alto. Uma menina infernal. Ninguém ao redor conseguia qualquer tipo de fruição. Educador que sou, levantei e fui até a mãe:

— Senhora, essa criança é sua?
— É, sim.
— Então, leve-a para casa.
— Como assim?
— A sua filha é uma menina belíssima, mas não pode viver em comunidade ainda. A senhora tem de formá-la para que ela possa viver em comunidade. Ela está achando que pode fazer o que quiser. E não é isso a vida em comunidade, em que você tem autonomia, e não soberania.

A mãe me olhou espantada e eu continuei a explicação:

— Soberania é você fazer aquilo que quiser, independentemente de os outros existirem. Autonomia é você fazer o que quiser, no âmbito da sua liberdade conectada à das outras pessoas. Por isso, leve-a.
— Como? Se eu for levá-la, eu não vou almoçar.
— Como a senhora bem pode observar, ninguém aqui está almoçando.
— Mas não posso fazer isso, meu senhor.
— Pode, ela é sua filha. A senhora achou que o trabalho de parto era só na maternidade? Formar uma criança dá trabalho.
— Mas eu não posso levar. Se eu for levar, ela vai chorar.
— Chore.
— Mas ela vai brigar comigo.
— Eu sei, mas ter filho realmente dá trabalho. Não bata, não coloque num quarto escuro, não ameace, mas uma menina assim não pode ser deformada pela senhora. Quando ela estiver preparada, a senhora a traga de volta à comunidade. Agora ela não tem condição.
— O senhor está maluco.
— Talvez, mas não o suficiente para criar uma criança desse jeito.
— OK, eu vou levar, mas só para não brigar com o senhor.
— Não quero que a senhora faça isso por medo, porque não vou lhe fazer nada. Não vou encostar um dedo na senhora, não vou chamar o aparato policial, eu estou apenas lhe dando um conselho.

Claro que à minha volta ninguém almoçava, mas havia um apoio tácito; e a mãe se foi com a menina. Afinal, depois essa criança cresce, vai dirigir empresa, escola, hospital, mas não saberá o significado do que é viver em comunidade. Acha que porque deseja tem direito.

Há uma sociedade hoje cada vez mais frouxa na forma de comunicação com seus filhos. Isso nos coloca numa rota a ser pensada.

Nós temos uma grande questão na vida, que um dia foi colocada por Pierre Dac (1893-1975), ator do cinema francês do século XX, que disse: “O futuro é o passado em preparação”. Por isso, qual o passado que vamos ter daqui a 20, 30 anos? Qual o nosso legado? A atual geração de adultos será conhecida como a que fez o que em relação ao mundo, aos outros, à História, à convivência, às comunidades?

Se não enfrentarmos isso, daqui a 20, 30 anos seremos conhecidos como a geração que fez o quê? Que formou uma geração que só tem ideia do presente contínuo? A vida passou a ser infinitiva, não mais gerúndio. Como podemos formar uma geração que só acredita no presente contínuo? Nós estamos dizendo que não existe o futuro? Ou se vive o presente até o esgotamento ou não tem alternativa? É isso que queremos deixar de legado?

É preciso que nossos jovens ultrapassem a percepção reduzida de que é necessário fazer tudo agora, ao mesmo tempo, de uma vez, isto é, “aproveitar a vida” como sinônimo de viver apenas o momento presente.

Vida humana é história pessoal, e história é tempo que também tem futuro.


Filósofo e escritor, este é um trecho, editado pelo autor, do livro CORTELLA, M. S. Educação, Convivência e Ética (Audácia e Esperança). São Paulo: Cortez, 2015.

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