Educar contra a resignação

Eu conheço várias escolas, públicas e privadas, que têm escolas de pais, em que pais, mães e responsáveis se reúnem uma vez ao mês,…

Eu conheço várias escolas, públicas e privadas, que têm escolas de pais, em que pais, mães e responsáveis se reúnem uma vez ao mês, por exemplo, para estudar juntos. Convidam alguém para falar ou trazem um tema para debater; alguém sugere um texto, de maneira que uma comunidade adulta que tem responsabilidades sobre crianças e jovens não se desprepare nem admita o despreparo, em face de uma veloz mudança, como algo do destino.

A ruptura dessa predestinação — “mas o que eu posso fazer?” — tem de partir da escola. A responsabilidade é da escola? Não. Mas a escola tem mais ferramentas para fazer isso, tem mais autoridade na convivência com a família. Porque a escola se dedica à educação formalizada especializada e os pais, como um ou outro que tem dois ou três filhos, não formam uma entidade de pais. A escola é uma entidade coletiva por princípio. Uma família é uma entidade de poucas pessoas. Pais e mães ficam muito mais isolados em relação às suas angústias, ficam muito mais aban­donados no dia a dia em relação a essas agruras do que a escola. A iniciativa nessa direção deve partir da escola. Demora, é complexo, mas não é impossível.

É desagradável para nós, na escola, imaginar que o pai larga o filho na nossa mão. Tornar isso uma atitude de desleixo seria irresponsável da nossa parte. A escola é uma instituição que não faz tudo, mas aquilo que pode fazer, ela precisa fazer. Não podemos fugir do dever de acompanhar e encaminhar essas novas gerações.

É muito difícil para quem educa, seja um pai, uma mãe, um professor, uma professora, ir contra um pensamento hegemônico. Ele aparece em várias situações: “É preciso levar vantagem em tudo”; “É necessário ser sempre vitorioso”; “Se não estiver em primeiro, é um derrotado”; “Se você é uma pessoa boa, será tonta”…

Estar em consonância com o pensamento de uma parte grande não significa que se esteja correto. A hegemonia não garante — e esse é um dos dilemas da democracia — correção. Ela garante apenas que a maioria defende aquele ponto de vista. E, se temos como critério que a maioria decide, ela decide, mas não significa que está sempre correta. Há uma diferença entre democracia e ética. Pode haver um país em que a maioria decidiu pela ditadura. Mas uma análise acurada mostra que uma ditadura é intrinsecamente podre do ponto de vista da ética.

Em algumas situações, educadores se veem na obrigação de fazer aquilo que não é coletivamente esperado. Quando eu era secretário de Educação na cidade de São Paulo, tive de dirimir conflitos, às vezes pessoalmente, às vezes por meio de assessores. Um exemplo: conselho de escola, composto por pais, alunos, professores e funcionários. Na gestão em que eu estava, esses conselhos eram paritários e deliberativos, compostos por pessoas dos quatro segmentos, de maneira igualitária. O que fosse decidido, a diretoria teria de aceitar, e a secretaria também.

Toda vez que se levava para o conselho um caso de um aluno rebelde, que perturbava, a posição dos professores era conversar com ele, tentar orientá-lo. A posição dos pais e alunos era expulsá-lo. E nós, da secretaria, tínhamos de ir até a escola, nos reunir com o conselho e mostrar que a decisão da maioria colidia com uma legislação maior, que é a Constituição, que assegura os direitos do indivíduo.

Enfrentar a hegemonia, se está na sua convicção ética, é um dever.

* Filósofo e escritor, este é um trecho, editado pelo autor, do livro CORTELLA, M. S. Educação, Convivência e Ética (Audácia e Esperança). São Paulo: Cortez, 2015.

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