Endometriose: quando a dor não é normal

DURANTE ANOS, milhões de mulheres ouviram a mesma frase: “É normal sentir dor na menstruação”.
31/03/26 |
vero

Doença silenciosa e subestimada pode levar anos até o diagnóstico e exige atenção aos sinais do corpo

Alexandre Nishimura é médica coloproctologista e cirurgião robótico, além de palestrante

DURANTE ANOS, milhões de mulheres ouviram a mesma frase: “É normal sentir dor na menstruação”. Mas não é. Dor incapacitante, cíclica, que piora mês após mês, não deve ser banalizada. Muitas mulheres convivem com lombalgia que se intensifica no período menstrual, dor profunda no quadril ao permanecer sentada, desconforto que irradia para as pernas, dor após o orgasmo, dor ao evacuar durante a menstruação, pontadas na região perineal e alterações intestinais, como diarreia ou aumento do número de evacuações nesse período. Esses sintomas podem estar relacionados à endometriose.

Trata-se de uma doença silenciosa e frequentemente subdiagnosticada, que atinge cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva no mundo. O tempo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico pode chegar a entre sete e dez anos. São anos convivendo com dor e ouvindo que tudo isso seria “normal”.

Entre as hipóteses mais aceitas sobre sua origem está a teoria embrionária, que sugere que a mulher já nasce com células endometriais fora do útero. Com o início da menstruação, esses focos passam a responder aos estímulos hormonais, desencadeando inflamação crônica. Ao longo do tempo, podem surgir fibroses, retrações e comprometimento de estruturas profundas como intestino, bexiga, ureteres, diafragma e nervos pélvicos. Por isso, muitas pacientes apresentam sintomas intestinais, urinários ou dores neuropáticas associadas ao ciclo menstrual.

Nos casos de endometriose profunda, a abordagem precisa ser especializada e multidisciplinar. A ideia de que o tratamento deve ser conduzido exclusivamente pelo ginecologista não reflete a realidade atual. Quando há comprometimento de órgãos como intestino, bexiga e estruturas nervosas da pelve, o cuidado exige a atuação integrada de profissionais experientes, como ginecologistas, coloproctologistas, fisioterapeutas pélvicos, nutricionistas, entre outros especialistas que trabalham em conjunto para oferecer um tratamento completo e seguro.

Mais do que tratar lesões, é preciso mudar a forma como a dor feminina é interpretada. Dor cíclica incapacitante não deve ser normalizada. Sofrer calada não deve ser uma regra. O corpo da mulher não foi feito para viver em dor. Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para que milhares de mulheres deixem de conviver com anos de sofrimento silencioso e tenham acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequado. □

“Dor incapacitante durante a menstruação não é normal e pode ser um sinal de endometriose”

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