Filhos: autonomia sim, soberania não!

Uma das atitudes mais comuns atualmente, numa sociedade indisciplinada, que forma gerações indisciplinadas, é priorizar a soberania em detrimento da prática da autonomia.

Autonomia é convivência. Soberania é imposição. Uma das atitudes mais comuns atualmente, numa sociedade indisciplinada, que forma gerações indisciplinadas, é priorizar a soberania em detrimento da prática da autonomia. Com isso, as fronteiras entre o direito do indivíduo e a convivência na comunidade ficam difíceis de serem identificadas com clareza. Vemos hoje muitas crianças imperativas (não só hiperativas), que se comportam como tiranos. A tirania entendida como a sobreposição da própria vontade, independentemente das circunstâncias e das outras pessoas.

A formação de crianças que são tirânicas se dá por ausência de convívio de parte de pais, sob o argumento de que o mundo do trabalho e a necessidade de posse material exigem um dispêndio de tempo quase exclusivo. Nessa percepção, uma parte acaba descuidando dessas fronteiras que precisam ser observadas. Criar crianças dá trabalho e exige tempo. E tempo é algo que vai rareando numa sociedade com demandas crescentes.

Essa situação se desdobra dentro da escola, onde as crianças ficam quase ofendidas quando cobradas em relação a um material, uma tarefa, uma avaliação. Responsável significa aquele que dá resposta a alguém. Aquele que responde o que fez e o que não fez.

Parece que hoje cobrar respostas se assemelha a uma ofensa, a depender da camada social de onde essas crianças vêm; porque não são cobradas no cotidiano, a noção de responsabilidade fica afrouxada. Nesta geração, em que adultos pouco convivem com as crianças, é na escola que elas são cobradas: “Fez a lição?”; “Trouxe o material?”; “Leu o que foi pedido?”… Se bobear, dependendo da escola, o aluno parte para cima. Em outras ocasiões, é o pai e a mãe que vêm reclamar.

— Você reprovou o meu filho?

— Ele não fez o trabalho.

— Ah, mas só por isso?

Vêm tirar satisfação conosco porque alguém não fez o que tinha de fazer, e aí é preciso redobrar o cuidado com esse aluno, porque ele está crescendo com uma ideia destrambelhada de que a vida é feita sem esforço. Cautela! Estamos formando uma geração que não tem ideia de esforço e confunde desejos com direitos. “Eu quero, você tem de me dar.” Essa é a lógica.

A criança aprende isso com facilidade, pois desde pequena sabe manipular circunstâncias, sabe fazer com que os pais cedam, sabe usar o choro e a entonação de maneira que o adulto entenda aquilo como um sofrimento e procure interromper aquele desconforto a qualquer custo. Alguns adultos se tornam reféns.

No âmbito da escola, esse comportamento produz um fenômeno duplo: um nível maior de violência em relação à autoridade docente e, em segundo lugar, um desalento docente. Esse desalento docente se expressa em frases do tipo: “A família abandonou as crianças nas nossas mãos, mas não temos como dar conta, não há o que fazer”.

Essa lamentação não é resolutória, é apenas uma constatação.

Ninguém na escola, em sã consciência, pode desconhecer essas circunstâncias, mas isso é só para levar em conta, não é para se submeter. De nada adianta dizer que a família não vem cuidando de suas crianças.

Isso é só uma constatação; é preciso que a escola, como uma instituição educacional especializada, de maneira intencional, deliberada, organize tempos e modos de fazer com que os pais possam ser educados em relação a esse tipo de déficit de formação, de lacuna ética, de fratura na forma de convivência.

Isso significa partir da constatação, abandonar a reatividade e assumir uma postura de proatividade.

* Filósofo e escritor, este é um trecho, editado pelo autor, do livro CORTELLA, M. S. Educação, Convivência e Ética (Audácia e Esperança). São Paulo: Cortez, 2015.

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