Há muitas formas de ajudar

Descubra como e por que faz bem fazer o bem

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Imagine uma pessoa com deficiência física e intelectual, que nunca teve a chance de andar e, de repente, ganha a oportunidade de cruzar a linha de chegada em uma prova de corrida. Parece algo improvável, mas isso é possível graças ao trabalho voluntário de pessoas envolvidas com organizações não governamentais (ONGs). O exemplo acima é uma iniciativa do projeto Pernas de Aluguel, que leva pessoas com deficiência para competir em provas de corrida de rua, com a ajuda de corredores voluntários que se revezam para empurrar cadeiras de rodas adaptadas durante todo o percurso. O projeto está ligado a várias ONGs, incluindo a Comunidade de Amor Rainha da Paz, sediada em Santana de Parnaíba.

Daniel Neri, 27 anos, portador de encefalopatia crônica não evolutiva (conhecida como paralisia cerebral, que resulta em ausência das atividades físicas e mentais), é um dos atendidos pela organização. Além de ter participado de provas junto com o time do Pernas de Aluguel, na Rainha da Paz ele joga xadrez, faz pinturas, sessões de fisioterapia, entre outras atividades. Mais: com o projeto João-de-Barro, outra iniciativa da ONG, ele ganhou uma adaptação em sua residência: “Eles adaptaram nossa casa de acordo com as necessidades do Daniel. O banheiro, por exemplo, foi ampliado. Colocaram barras para facilitar a locomoção, e não tem degrau nenhum”, conta Maria Nilza Oliveira, mãe de Daniel.

Selma Louver, responsável pela comunicação e marketing da Rainha da Paz, explica que, no caso das pessoas com deficiência física e intelectual, é muito importante que a casa seja uma extensão do trabalho realizado pela ONG, caso contrário, a tendência é que haja uma regressão. “Desde que o Daniel passou a ser assistido pela Rainha da Paz, muitas coisas boas aconteceram. Ele volta para casa sempre muito feliz”, relata, satisfeita, a mãe.

A Comunidade de Amor Rainha da Paz dá assistência às crianças com deficiências múltiplas

O termo “organização não governamental” foi criado em 1945 no artigo 71 da Carta da então recém-formada Organização das Nações Unidas. Uma ONG pode ser  qualquer tipo de organização, desde que seja independente da influência de governos e sem fins lucrativos.


Anjos da Guarda

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UP ONG resgata a autoestima e melhora a qualidade de vida de pacientes oncológicos

“Essa ajuda caiu do céu! Na UP ONG, conheci uma senhora que me ensinou crochê. Hoje adoro e, fazendo isso, vou esquecendo o meu problema”, conta Geny Juodinis, 72 anos. Diagnosticada com câncer de mama aos 70 anos, foi na instituição que a senhorinha bem-humorada encontrou apoio complementar ao tratamento médico. Além do crochê, a ONG, que oferece atendimento domiciliar personalizado gratuito para pacientes oncológicos, também proporcionou sessões de fisioterapia para Dona Geny. “Como tirei muitas glândulas debaixo da axila, o braço perdeu a circulação. E tinha que fazer fisioterapia. A médica voluntária da UP foi simplesmente maravilhosa”, reforça Geny.

Kalyn Diegues, fundadora da UP ONG, sentiu na pele o drama de um câncer. Foi quando notou o quanto a autoestima está ligada à cura da doença. Por isso criou a ONG, em 2014. “Essa doença também afeta as pessoas de diferentes maneiras, e percebi que o atendimento complementar, que é o que dá força para seguir em frente, precisa ser muito personificado”, conta Kalyn.

Ela não é a única que retirou de uma experiência própria o incentivo para ajudar o próximo. Foi depois de enfrentar a dependência química de um dos filhos que Ronaldo Meirelles Campos criou a Comunidade Terapêutica Filhos da Luz, sediada em Carapicuíba. “Recebemos pessoas em situação crítica, aquelas que chegaram ao ‘fundo do poço’, e levamos esperança a elas”, conta.

É o caso de Antônio Júlio Pereira da Silva, 37 anos: “Quando entrei na cocaína, fui perdendo tudo. Perdi esposa, trabalho, amizade, parentes. Pensava: ‘está todo mundo me abandonando, o que eu vou fazer? Me afundar mais! Vou usar à vontade. Agora não tem ninguém para falar nada para mim’”, conta. “Não lembro nem quando foi isso. Perdi a noção do tempo. Sei que foi de 2005 para cá”, completa. Na ONG, no entanto, ele foi vendo sua vida ganhar significado. “Vim de um mundo em que ninguém me dava valor e cheguei a um lugar em que muitas pessoas me davam bastante atenção e credibilidade para o que eu dizia. Comecei a trabalhar na cozinha, e todo mundo elogiava minha comida. Fui percebendo que eu tinha algo de bom”, relata Júlio.

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A Comunidade Terapêutica Filhos da Luz recupera dependentes químicos

Para evitar que as pessoas cheguem a essa situação tão desesperadora, a Associação de Apoio à Família (SAF) oferece atividades para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. “O intuito é tirar a ociosidade da criança. Diminuir o risco de envolvimento dos adolescentes com as drogas e, ainda, facilitar a entrada no mercado de trabalho”, conta Mirtes Cupertino, coordenadora da instituição. Alan da Silva, de 15 anos, veio de Recife para morar com o pai, no bairro Parque Imperial, em Barueri, em 2016. E, de imediato, foi encaminhado para a ONG. “Lá faço diversas atividades, todos os dias da semana. De rotina administrativa a teatro, hip hop e grafite. Vou para a escola à noite e faço as atividades durante o dia. Estou aprendendo muitas coisas, mas o que eu mais gosto é do hip hop”, conta. “O negócio dele é ir para o SAF. Assim, ele não quer saber de ficar na rua. Vai da ONG para a escola e, depois, para casa. E nunca fica na rua”, completa o pai, orgulhoso.

Para Luiz Cláudio dos Santos Silva, 30 anos, a oportunidade veio de onde ele menos esperava: “Fiquei desempregado, e a pastora da ONG que atende minhas filhas [Proteger Kids] perguntou se eu tinha interesse em fazer o curso de operador de empilhadeira no Senai Barueri. Disse que sim. Depois, consegui um trabalho, mas, para atuar na área, era preciso um pouco mais de experiência, de no mínimo seis meses. Creio que, por meio desse curso, terei muitas outras oportunidades”, conta.

Crescimento sustentável

Entre 2006 e 2010, a quantidade de fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil passou de 267 mil para 290 mil, de acordo com um estudo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)*. No mundo, o número de pessoas que doam dinheiro para ONGs aumentou de 1,2 bilhão em 2011 para 1,4 bilhão em 2014. Além do nítido crescimento de ONGs e pessoas querendo ajudar, outro destaque é o potencial econômico por trás desses números. Por exemplo, nos Estados Unidos 1,4 milhão de ONGs empregam 11,4 milhões de trabalhadores.

Já por aqui, das 210 mil ONGs, 72% não têm nem sequer um empregado formalizado. Mais: no Brasil, a participação econômica do Terceiro Setor é de 1,4% na formação do Produto Interno Bruto (PIB), o que significa um montante de aproximadamente R$ 32 bilhões (2015). Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos, onde o Terceiro Setor é muito mais profissionalizado, o total de doações para organizações não governamentais em 2014 foi de 358,38 bilhões, cerca de 2% do PIB.

Apesar dos dados animadores, o trabalho das ONGs e voluntários é pouco reconhecido. Regina Vizoso, coordenadora da Rede Social, organização que busca, por meio de eventos e ações, aproximar setores público e privado do Terceiro Setor de 12 municípios da região oeste metropolitana de São Paulo (Barueri e Santana de Parnaíba entre eles), explica que, tanto para ONGs não formalizadas quanto para as constituídas legalmente, a maior dificuldade é a falta da regularidade na entrada de recursos. “Uma empresa privada tem, ao menos, uma receita estimada. As associações do Terceiro Setor, não. Elas nunca sabem o que vai acontecer no mês seguinte. Uma pessoa que ajuda num mês pode não ajudar no mês seguinte. As parcerias com setor público podem ser encerradas a qualquer momento, e as com o setor privado também”, diz.

Para ela, é muito importante, em primeiro lugar, que as pessoas abram a cabeça: “Falta muito voluntário nesse setor. Mas o grande problema é que as pessoas que se propõem a ajudar, muitas vezes, querem atender diretamente a causa e se esquecem de que é possível ajudar também outros setores das instituições”, diz. E exemplifica: “Por exemplo, é comum uma pessoa querer ajudar uma ONG de animais abandonados beneficiando diretamente o cãozinho, sem se dar conta de que também pode contribuir em áreas complementares. A instituição tem gastos fixos com sede, funcionários… Recursos intelectuais também são uma ajuda preciosa”.

“Estamos caminhando para o profissionalismo, mas isso só vai se efetivar quando os setores público e privado estiverem de fato mais próximos do Terceiro Setor. Eles precisam apoiar causas de fato, e não apenas para cumprir tabela. É nesse momento que a chavinha muda”, conta Regina.

Falta de conhecimento

E por que as pessoas não ajudam? Uma pesquisa realizada pela MindMiners com 600 entrevistados, a pedido da VERO, revelou que 93% consideram o trabalho desenvolvido pelas ONGs importante ou muito importante, no entanto, menos da metade (41%) colabora ou já colaborou com uma instituição. Em contrapartida, 63% disseram que gostariam de ajudar uma ONG. Entre as razões apontadas para não ajudar estão a falta de dinheiro (55%) e de tempo (23%). Grande parte dos entrevistados (47%), no entanto, revelou um motivo mais intimidante: não conhecer o trabalho de uma ONG ou não saber como ajudar.

Quer conhecer a história de 5 pessoas que tiveram suas vidas transformadas pelo voluntariado? É só clicar aqui.

Quer saber de que maneira você pode ajudar uma ONG? Clique aqui também 🙂

*Fonte: Estudo Perfil das Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos em 2010, realizado por uma parceria entre Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), com a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG) e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE)
Fotos: Daniel Freire e divulgação
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