Helio Contador: “A realidade não é igual para todos”

Novas descobertas de estudos científicos estão revelando pistas sobre como a informação sensorial e os processos cognitivos interagem no cérebro para produzir nossa percepção de mundo

Não é muito simples compreender que a minha realidade pode ser diferente da sua, apesar de o fato gerador ser o mesmo. Isto não só é possível como pode ser o grande responsável por tantas discordâncias, intolerâncias e inimizades criadas ao longo do tempo. Existe uma explicação lógica para este fato, que começa com a origem da concepção da vida humana, antecipando nossa genética física e biológica, ou seja, nossa hereditariedade, e nossa herança psíquica, termo presente em textos da psicanálise.

Biologicamente falando, nosso corpo físico vai seguir a constituição genética dos nossos pais e avós biológicos, mantendo, em geral, a marca física da família, onde todos são muito parecidos. Na parte psíquica, trazemos tendências e marcas psicológicas dos nossos antepassados, podendo chegar a algumas gerações anteriores, que fundamentam o psiquismos de todo ser humano e que será completado com o decorrer do tempo e o avanço da nossa maturidade. Além disto, me arrisco a dizer que temos um terceiro componente na nossa “herança” antes do nascimento, que é o componente espiritual, trazendo experiências anteriores que vão influenciar e muitas vezes ditar o rumo da nossa vida atual. Fica a critério de cada um colocar um componente religioso nesta conversa, ou não!

Uma vez nascidos, vamos complementando e solidificando nossos valores e crenças através das nossas interações familiares, na escola, no trabalho e nas amizades, formatando nossos caráteres moral, ético e social, que se tornarão o motor da vida em sociedade, através das experiências que o tempo vai nos impondo, seja nas alegrias ou tristezas, nos sucessos, dores, dificuldades e frustrações que todos nós vamos passar. Em consequência destas experiências formamos nossas percepções, que por sua vez criam nossas realidades.

Novas descobertas de estudos científicos estão revelando pistas sobre como a informação sensorial e os processos cognitivos interagem no cérebro para produzir nossa percepção de mundo.

Na reunião anual de Neurociência em 2021 da Society for Neuroscience foram apresentados alguns resultados que indicam que certas entradas sensoriais, como pontos turísticos, sons e toques, produzem informações ricas sobre o mundo externo. Mas nossa percepção e interpretação das sensações são fortemente moldadas por processos cognitivos como atenção, expectativa e memória.

“Os achados da neurociência apresentados demonstram a importância de estudos cerebrais comparativos em questões de longa data na percepção e cognição humana. Esses avanços mostram como as pesquisas em diferentes sistemas de modelos podem se unir para aprimorar nossa compreensão do cérebro humano, desde os mecanismos neurobiológicos de percepção até nossas experiências perceptivas subjetivas.”, disse Sabine Kastner, professora da Universidade de Princeton que estuda percepção visual e atenção.

Ou seja, se juntarmos nossas origens hereditárias de nascimento e mais todas as vivências, experiências e suas respectivas memórias criadas ao longo da nossa vida, torna-se praticamente impossível que as pessoas tenham suas percepções ou formação de realidades iguais entre si e terão sempre algo de diferente, que outras pessoas não necessariamente vivenciaram.

Creio que este seja um bom ponto de racionalidade para se entender por que as pessoas pensam e sentem as coisas de formas diferentes, mesmo sendo criadas no mesmo ambiente familiar e dentro das mesmas condições sociais, educacionais e econômicas. Nossas experiências, percepções e realidades são diferentes: simples assim, até para fatos e situações que parecem óbvias para uns, mas não tão óbvias para outros. Se entendermos isso, talvez a tolerância no mundo aumente um pouco!

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