Helio Contador: “Como a Neurociência se aplica no nosso dia a dia”

Aquele sentimento de desperdício de tempo, dispersão e falta de assertividade que nos remete a um alto grau de ansiedade, pode gerar consequências mentais e físicas no nosso corpo

Esse é meu primeiro artigo nessa ventura de colunista da revista VERO, que aprendi a apreciar e respeitar muito, na qualidade de morador de Alphaville há quase 30 anos. Escolhi esse tema, que reconheço ser amplo demais, mas queria iniciar essa série de artigos chamando atenção para o ponto comum do assunto que me dedico com muito entusiasmo nos últimos anos, que é o comportamento humano na vida social e no trabalho.

Por mais de 35 anos fui executivo ocupando os maiores cargos de empresas multinacionais, incluindo vivências na Alemanha e nos Estados Unidos e o ponto comum nessas experiências foi sempre trabalhar com gente. Poder gerenciar milhares de pessoas em vários continentes, com os mais diversos modelos culturais foi um enorme desafio, muito superior às decisões financeiras e técnicas que precisei tomar. Mas valeu a pena!

Foram todas essas experiências que me instigaram a buscar um conhecimento mais profundo e científico sobre o funcionamento do cérebro e da mente humana, através dos resultados das pesquisas que a Neurociência está nos trazendo mais recentemente.

Nosso cérebro

Nas últimas décadas, o avanço científico que vivenciamos no planeta foi maior que em séculos anteriores, incluindo a “santa tecnologia nossa de cada dia!”

Dentre as ciências que mais avançaram, podemos destacar aquela que procura desvendar os mistérios do que podemos chamar de o “último reduto humano a ser desvendado: o cérebro humano”.

Biologicamente já está bem avançado o conhecimento dos processos das decodificações dos nossos sentidos (audição, visão, olfato…) em impulsos elétricos dentro do cérebro, além das reações eletro/químicas das sinapses. O que os pesquisadores continuam buscando incessantemente são os caminhos diretos e indiretos que dirigem nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossas emoções e nossos diferentes níveis de memória.

Hoje sabemos que os caminhos sinápticos se alteram e nem sempre percorrem os mesmos trechos, o que se chamou de “plasticidade”. Isso é uma ótima notícia para aqueles que sofrem algum trauma cerebral e assim podem manter a esperança de recuperar algumas funções motoras ou cognitivas eventualmente perdidas.

E, ao tentar entender o misterioso fenômeno “gente”, me deslumbro cada vez mais com a avalanche de novas descobertas científicas que recebo diariamente sobre o funcionamento do cérebro e do comportamento humano, impactando intensamente o dia a dia de cada um de nós.

Como lidar com o ser humano? 

Uma coisa interessante que comento nas palestras, cursos e workshops é que, independentemente do tema principal a ser abordado, o assunto comum é sempre “gente e o comportamento humano”, ou seja, se falo de liderança, de marketing, de vendas, de empreendedorismo, de inteligência emocional ou qualquer outro assunto, sempre que existir um relacionamento entre dois ou mais humanos, nossos cérebros reagem de formas diversas e muitas vezes inesperadas, o que torna a comunicação humana, no meu entender, a arte mais desafiadora de ser compreendida. É o que muitos chamam de H2H – comunicação humano para humano.

Creio que um dos grandes desafios que temos pela frente seja entender como milhares de pesquisas e descobertas feitas pela Neurociência no campo do comportamento humano podem ser transferidas para as nossas atividades diárias, seja na família, no trabalho, com amigos, nas atividades filantrópicas ou qualquer outro lugar que exija um relacionamento entre humanos.

O que traz mais emoção aos nossos relacionamentos é que nós, na condição de seres humanos, nos construímos e nos transformamos o tempo todo, com base nas nossas experiências de vida, na aquisição de novos conhecimentos e nos ensinamentos que colhemos através das nossas percepções diárias. Ou seja, somos eternos mutantes…

Quando converso com gestores de empresas, o ponto comum é sempre: como lidar com o ser humano, como traduzir todo o conhecimento científico atual para a prática empresarial. Será que é possível criar um clima saudável de equipe e união entre os funcionários, clientes, fornecedores, enfim, com os chamados Stakeholders das empresas, mantendo a produtividade, qualidade, responsabilidade social e rentabilidade das empresas? Isso tira o sono de muita gente, incluindo os gestores da área de Recursos Humanos.

É aqui que os conhecimentos da Neurociência podem nos ajudar, e muito. Entender o cérebro e o seu relacionamento com o comportamento humano, a multiplicidade das nossas inteligências, os principais perfis comportamentais e suas relações entre as pessoas, ou mesmo estimular os aspectos tão desejados de criatividade e inovação.

E ainda nem falamos na relação de amor e ódio que a tecnologia (internet, smartphones, tablets, etc.) nos premia através das redes sociais. Quem resiste ao toque de uma nova mensagem no WhatsApp, no Instagram, no Facebook ou LinkedIn? Você já tentou ficar sem olhar para o aparelho depois do segundo toque? Que tortura! (leia também: O que a tela inicial do seu celular diz sobre você)

Só que, junto com todos os indiscutíveis benefícios que temos nas mãos em termos de velocidade e quantidade de notícias e informações, conexões e reconexões entre pessoas em qualquer parte do planeta, em tempo real, ganhamos uma série de efeitos colaterais.

Um dos temas que mais me é solicitado ultimamente trata da falta de foco, perda de atenção e baixa produtividade e insegurança das pessoas em qualquer lugar, seja em casa, no trabalho ou na escola. É comum chegarmos no fim do dia com a sensação de cansaço e com muitas tarefas não cumpridas. Aquele sentimento de desperdício de tempo, dispersão e falta de assertividade que nos remete a um alto grau de ansiedade, pode gerar consequências mentais e físicas no nosso corpo. Concordo com o Dr. Augusto Cury quando ele fala que o mal do século é a SPA – Síndrome do Pensamento Acelerado.

Tudo isso sem falar na intromissão da Inteligência Artificial nas nossas vidas (sem pedir licença), que, com certeza, já está trazendo um enorme impacto nas profissões atuais e transformando nossos empregos do futuro.

Bom gente, dei uma longa viajada em vários aspectos do cotidiano das nossas vidas, sem ainda ter citado como vamos enfrentar uma longevidade sem precedentes na história humana no planeta Terra ou mesmo sobre as novas gerações (X, Y, Z, Millennials) que estão vindo com mudanças fundamentais nas áreas do comportamento humano, responsabilidade social, meio ambiente e qualidade de vida.

Esse é só o começo de uma série de artigos que terão sempre como base a influência da Neurociência no funcionamento do cérebro e no comportamento humano. Espero que enviem seus comentários, perguntas e sugestões de temas; se eu precisar de ajuda vou consultar meus amigos neurocientistas, psicanalistas e espiritualistas!

Um abraço e até o próximo artigo.

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