Helio Contador: "Nenhuma novidade nessa pandemia"

Exemplos de solidariedade e ajuda ao próximo estão se sobressaindo em todos os cantos do mundo que podem ajudar a reduzir a enorme desigualdade social que ainda impera nesse planeta
23/04/20 |
vero

Tem alguém se espantando com as notícias do efeito COVID19 no nosso dia a dia? Tirando o fato de ser um vírus que se espalha muito rápido no seu contágio e que atingiu o mudo inteiro, quais são as outras novidades?

Quando assisto aos noticiários que trazem detalhes catastróficos da situação no Brasil e no mundo, fico pensando em quem devemos realmente acreditar. Não tenho dúvidas sobre a gravidade do problema, porém fico pensando na quantidade de interesses políticos e econômicos que existem por trás de tudo que é divulgado. Eleições chegando, governantes disputando poder, congresso aprovando pacotes de emergência para compras sem concorrências e criando rombos orçamentários para décadas no futuro, sem falar da discórdia máxima em que os dois lados parecem ter razão: salvem-se vidas da doença, custe o que custar, ou deixem pessoas morrer por miséria extrema diante de uma recessão sem precedentes na história da humanidade desse planeta.

Por outro lado, muitas coisas que estão surgindo como consequências desse novo corona vírus não são novidades para ninguém, somente estavam escondidas debaixo do tapete e sempre existiram. Será que estou enganado ou é a primeira vez que ouvimos falar sobre a precariedade de vários hospitais públicos espalhados pelo Brasil com pacientes sendo largados pelos corredores enquanto esperam atendimento dos médicos e enfermeiros? Campanhas imensas ensinando como lavar bem as mãos, quando milhares de pessoas vivem constantemente com falta de água nas torneiras e ao lado de esgoto a céu aberto? Tantas mortes diárias devido ao novo vírus, porém morre muito mais gente por outros motivos que passaram a ser banalizados no cotidiano. Esses são alguns exemplos de situações que aprendemos a conviver e nos acostumamos a aceitar no dia a dia.

O lado bom de tudo isso é que teremos uma grande oportunidade de repensarmos nossa forma de viver e aprender com essa pandemia. Novos valores deverão permear nossa sociedade, e já estão sendo colocados em prática pela população. Exemplos de solidariedade e ajuda ao próximo estão se sobressaindo em todos os cantos do mundo que podem ajudar a reduzir a enorme desigualdade social que ainda impera nesse planeta. Estamos aprendendo a respeitar mais o próximo e praticar o altruísmo na sua melhor forma.

Vale lembrar que temos um cérebro social, ou seja, liberamos neurotransmissores de prazer e recompensa quando praticamos atos de ajuda ao próximo. As conexões sociais são tão importantes que nosso cérebro desenvolveu a chamada “dor social” como forma de garantir que estejamos sempre conectados a outras pessoas. Pesquisas da Neurociência apontam que, estar socialmente conectado, é uma necessidade básica, não só humana, mas inerente ao reino animal em geral. Sentimos um certo prazer social quando nos conectamos à outras pessoas ou então quando fazemos parte de grupos sociais. Adoramos nos sentirmos queridos e amados por outras pessoas, só que, quando isso não acontece, vem uma sensação ruim, que pode ser chamada de uma dor social. O interessante é que tanto o prazer quanto a dor são sentimentos que se sobrepõem, tanto no campo físico como no social.

Estamos reaprendendo a ver rios, mares e céus menos poluídos e a fauna voltando a aparecer em locais que haviam sido abandonados. Vizinhos voltando a se falar, ou mesmo se conhecer, após tantos anos morando próximos uns aos outros.

Quem sabe aprenderemos, com essa dor, a valorizar mais o nosso tempo e como usá-lo de forma mais produtiva e eficiente, para o trabalho e para as vidas pessoal e social. Entender que os valores materiais não se sobressaem aos valores espirituais, uma vez que a morte alcança a todos indistintamente, ricos ou pobres. O isolamento social nos obrigará a desenvolver melhor o autoconhecimento e novas regras de bem estar social, com mais empatia, paciência, tolerância e resignação. Vamos aprender a valorizar profissões e atividades que talvez antes fossem vistas como rotineiras e muitas passavam até desapercebidas diante dos nossos olhos cheios de preocupações, medos e ansiedades.

Interessante a quantidade de pessoas que se sentem inspiradas a escrever artigos sobre solidariedade e bem estar, sobre o repensar da vida que levavam e tantas outras coisas que motivem e tragam esperança num momento tão doloroso da vida no planeta Terra. Espero que continuem assim quando tudo isso passar.

Por fim, fica ainda a grande esperança, que não parece totalmente marcada nos agentes públicos e nos poderes do executivo, legislativo e judiciário, ou seja, começar a pensar mais na qualidade de vida do povo, e menos nos seus interesses pessoais e partidários. Quem sabe o novo corona vírus opere esse milagre.

Um abraço, boas reflexões e até o próximo artigo.

 

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