Helio Contador: “Por que o mesmo fato gera percepções e memórias diferentes?”

Como duas pessoas, dificilmente, terão passado pelas mesmas situações e cultivado exatamente as mesmas crenças e valores, fica quase que impossível elas terem a mesma percepção

Não sei se você já percebeu isso, mas é comum as pessoas terem percepções diferentes para um mesmo fato, gerando inclusive memórias e emoções diferentes entre elas. Passado um tempo, se pedirmos para duas pessoas que vivenciaram o mesmo evento descreverem o que aconteceu, muito provavelmente elas descreverão o fato de forma diferente. Por que será que isso acontece?

A Neurociência pode explicar esse fenômeno tão presente no dia a dia das pessoas. A formação das nossas memórias não se baseia somente no fato em si, mas sim como percebemos esse fato no contexto das nossas crenças, valores, vivências e experiências acumuladas ao longo da vida. Como duas pessoas, dificilmente, terão passado exatamente pelas mesmas situações e cultivado exatamente as mesmas crenças e valores, fica quase que impossível elas terem a mesma percepção e, consequentemente, a mesma memória sobre um fato comum. Acrescente-se a isso um grau de emoção que fica ligado à essa memória, que também é um fator individual e único de cada pessoa.

Num artigo recente da Neuroscience News chamadoWhy Two People See the Same Thing But Have Different Memories”, os pesquisadores foram um pouco mais a fundo nesse assunto trazendo alguns pontos que vou detalhar a seguir. Os passos para guardarmos algo na nossa memória consistem em três etapas básicas: codificação (como enviamos a informação ao nosso cérebro), armazenamento (como vamos reter essa informação no longo prazo) e recuperação (como buscamos essa informação armazenada na memória).

Pelo artigo, as memórias são armazenadas primeiramente e temporariamente numa área chamada de Memória de Curto Prazo, que é de fácil acesso, mas com pouca capacidade de armazenamento (três a quatro bits de cada vez). É quando precisamos gravar um número ou nome rapidamente, mas depois não vamos usar mais. Por outro lado, a Memória de Longo Prazo tem uma capacidade muito grande de armazenamento, mas requer um processo mais elaborado de consolidação, normalmente associado com algum tipo de emoção, que pode combinar com um ou mais fatores dos nossos cinco sentidos. Essa consolidação pode se dar quando repetimos várias vezes o que queremos gravar (lembra da decoreba na escola?), quando fazemos associações com experiências anteriores ou então durante o sono. Daí se explica a importância de uma noite bem dormida para consolidar nossas memórias e organizar nossos pensamentos.

Já no caso da recuperação de uma memória, a operação é mais complexa porque envolve imagens (lugares, pessoas e objetos), além de emoções e sentimentos associados àquela lembrança (alegrias, tristezas, romantismo, frustrações, raivas, etc.). Por outro lado, pode também pode ser instantânea e sem controle da nossa racionalidade, ou seja, ela simplesmente aparece, você querendo ou não. Por exemplo, quando você ouve uma música que te traz uma lembrança de algum fato marcante da sua juventude, a memória vem imediatamente. Ou seja, sabemos que várias partes do cérebro são envolvidas nessa complexidade, mas o processo completo ainda é um mistério para os cientistas.

O mais interessante é que, numa análise similar também recente, publicada no jornal Medical News Today (How do our brains remember?), eles afirmam que a recuperação da memória é um processo complexo, ainda desconhecido na sua íntegra, que envolve várias partes do cérebro e que também nem sempre relata os fatos exatamente como ocorreram na época, uma vez que colocamos nossos filtros (crenças, valores e experiências) na memorização do fato ocorrido. Você já prestou atenção quando alguém conta mesma história várias vezes, ou mesmo você contanto, elas nunca são iguais?

Pelo que falamos até agora, dá para se ter uma ideia do porque cada pessoa tem uma percepção individual das coisas. Além do mais, a recuperação de uma memória pode ser afetada pelo estado de humor da pessoa daquele momento ou até do seu estado de saúde (uma dor de cabeça ou estresse, por exemplo, podem limitar essa recuperação de memória). Temos também a influência do ambiente, das pessoas que estão conosco, que interferem na busca dos dados armazenados. Você já passou por uma situação de pânico ou emergência que gerou um “apagão” na sua memória e não conseguia lembrar de coisas simples e banais? Vale observar também que o envelhecimento interfere e debilita a habilidade com que codificamos, armazenamos e recuperamos nossas memórias.

Pois é, agora dá para ter uma noção melhor da complexidade e da individualidade com que guardamos nossas lembranças. De agora em diante, devemos aprender a respeitar mais as opiniões e percepções das outras pessoas, sabendo que nenhum fato é tão óbvio a ponto de que todos deveriam entender da mesma forma.

Espero que tenham gostado e, caso queiram receber os artigos que mencionei é só me pedir no comentário dessa página. Até mais…

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