Helio Contador: “Que tal assumir que somos imperfeitos?”

Viver a ansiedade de não cometermos erros pode trazer consequências ruins para nossa vida, pois, esperando a perfeição, podemos nunca concluir um trabalho importante

Fomos treinados desde pequenos que mostrar sinais de imperfeição e vulnerabilidade são indícios de fraqueza no caráter e falha no comportamento humano. Seja no trabalho ou no convívio social, temos vergonha de mostrar que cometemos erros. Precisamos ter muita coragem para vencer barreiras e aceitarmos a condição de seres ainda em evolução, muito longe da perfeição. Viver a ansiedade de não cometermos erros pode trazer consequências ruins para nossa vida, pois, esperando a perfeição, podemos nunca concluir um trabalho importante ou mesmo deixar a ousadia de lado para não correr o risco de falhar.

A pesquisadora da Universidade de Houston nos Estados Unidos, Brené Brown, best-seller em vários livros ligados às suas pesquisas nas áreas de vulnerabilidade e imperfeição humanas, tem feito muito sucesso com seus livros e palestras justamente ressaltando nosso medo e vergonha em assumirmos nossas imperfeições e vulnerabilidade como seres humanos. Ela define a vulnerabilidade como incerteza, risco e exposição emocional, o que traz um certo desconforto para muitas pessoas. Está certo que a autora é uma excelente contadora de histórias, mas, mesmo assim, a pergunta que fica é: por que assuntos tão comuns e corriqueiros despertam tanto interesse e curiosidade do público em vários países do mundo?

Creio que podemos buscar na Neurociência alguns achados que podem ajudar a fundamentar um pouco mais o grande interesse despertado por esse assunto. O primeiro deles é o da afeição, ou seja, nos identificamos com quem tem os mesmos problemas que nós temos. Quando nos isolamos e focamos somente em nossos problemas, eles parecem muito maiores do que realmente são e que só nós, dentre todas as pessoas do universo, estamos passando por isso. Daí vem a vergonha e o desconforto de falar sobre o assunto. Nos sentimos mais acolhidos quando sabemos que outras pessoas tem problemas semelhantes aos nossos e que também são seres que erram e são imperfeitos.

O segundo deles é o da aprovação social. Como seres biopsicosócioespirituais, precisamos nos manter conectados com outros seres humanos e nos sentirmos aceitos em um grupo social, seja no trabalho, na família, em algum time de futebol, algum grupo religioso ou mesmo com algum hobby. No meu caso, adoro estar com meus amigos motociclistas. Vale lembrar que nosso cérebro é um grande consumidor de energia, por isso ele gosta de automatizar pensamentos e comportamentos, justamente para poder economizar energia. Podemos criar hábitos dos mais diversos, repetindo e exercitando aquilo que queremos modificar. Isso vale também para os sentimentos de imperfeição e vulnerabilidade. Vejam no exemplo a seguir.

Eu vivi essa experiência de perfeição na própria pele, em muitas oportunidades, e aprendi muito com os tropeços e fracassos que vieram em decorrência dessa vontade de fazer tudo certinho. Mas teve uma situação em que isso ficou muito claro: foi quando decidi aprender a tocar saxofone, como um meio de usar meu “lado artístico do cérebro” com alguma atividade fora do mundo insano de um executivo de grande empresa multinacional. Naquela época, eu ainda não tinha estudado tanto sobre o funcionamento do cérebro e seus atributos, por isso achava que meu cérebro só estava funcionando do lado da racionalidade. Como bom engenheiro, me matriculei numa escola de música e comecei meus estudos de partituras e ritmos e acabei me saindo muito bem, depois de alguns anos, segundo meus amigos e familiares! Só tinha um problema: não conseguia improvisar e só tocava lendo as partituras.

Vamos combinar que o forte de um instrumento como o saxofone é tocar de improviso, uma das características principais do Jazz. Esse fato me incomodava tanto que cheguei a fazer terapia para entender o que estava acontecendo, e então aprendi que meu problema era justamente o de querer acertar todas as notas musicais. O terapeuta simplesmente me receitou: quando for tocar suas músicas lendo as partituras, erre algumas notas de propósito, assim você vai aprender que o mais importante é o ritmo geral e o swing da melodia, mesmo que algumas notas saiam erradas. Praticando esses erros propositais, eu perdi a “vergonha de errar” e assim segui tocando por mais de 12 anos, inclusive me apresentando em eventos filantrópicos.

Tem um ditado popular muito conhecido que diz: “Errar é humano, mas persistir no erro é burrice”. Tem tudo a ver com o tema que estamos discutindo nesse artigo, pois, se não conseguirmos aprender com os erros cometidos, então existe algo de errado conosco. Admitir o erro e buscar solucioná-lo faz parte de qualquer empresa moderna dos dias de hoje, mesmo porque, quando se fala em inovação e criatividade, se aceita o fato de que erros e acertos fazem parte do processo. Como já disse antes, nosso cérebro gosta de automatizar comportamentos para economizar energia, mas isso não é desculpa para persistirmos nos erros. Podemos sempre treinar novos e melhores hábitos por meio da repetição, até que se tornem automáticos.

Bem, por hoje é só e até o próximo artigo.

Um abraço fraterno.

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