Marcio Rachkorsky: “O mordomo é o suspeito”

Muitos moradores ultrapassam a tênue linha que separa seus meros pensamentos mesquinhos, de verdadeiros atos de preconceito e discriminação

Nos filmes, livros e novelas policiais e de suspense, o mordomo é o primeiro suspeito dos crimes que acontecem nas mansões. Afinal, é um serviçal e, mesmo sendo de confiança, já figura como suspeito principal, pois não é da mesma casta. Na ficção, isso é caricato. Mas, quando a vida imita a arte, tudo pode se tornar perigoso. Com tristeza, observo tal fenômeno nos condomínios e constato que muitos moradores ultrapassam a tênue linha que separa seus meros  pensamentos mesquinhos, de verdadeiros atos de preconceito e discriminação.

Vou aqui narrar duas situações absolutamente corriqueiras:

– Prédio novo, dezenas de apartamentos em obras, muitas famílias já morando. E um volume grande de pedreiros, gesseiros, marceneiros. Eis que uma série de pequenos crimes começam a ocorrer, como furtos de bicos de mangueiras de incêndio, de plaquinhas de identificação e tentativa de arrombamentos. No grupo dos moradores, ideias para acabar com os delitos: revistar os prestadores de serviços, suas bolsas e o porta malas de seus veículos e reforçar  a segurança para controlar os prestadores de serviços. Ora e os moradores, seus parentes e amigos, não podem eventualmente ser os meliantes? Não devem igualmente ser revistados? O tal do “nóia”, que furta uma peça de cobre para trocar por uma pedra de crack não pode ser o filho de um proprietário?

– Prédio antigo, famílias tradicionais e que se conhecem há décadas. Eis que ocorre um furto de grandes proporções num dos apartamentos, com meliantes flagrados nas câmeras entrando e saindo tranquilamente com os objetos furtados. Após uma comoção geral no grupo de moradores, eis que surge a brilhante ideia de trocar a empresa que fornece os funcionários, ante a desconfiança de que algum porteiro “deve ter passado a fita” e facilitado o acesso dos bandidos. Veladamente, com o passar do tempo, descobrem tratar-se de um caso em que, um dos proprietários, envolvido com más companhias, teve participação direta no ocorrido.

Dureza imaginar que nossos filhos, parentes ou amigos que nos visitam possam eventualmente cometer crimes, mas parece meio automático imaginar que o serviçal talvez o faça!  Nosso resquício da casa grande e senzala, algo abominável e que precisamos combater, repudiar todos os dias!

Importante que os condomínios elaborem, com a ajuda de consultores, planos e projetos para a área de segurança, englobando equipamentos e tecnologia, constante treinamento aos funcionários, conscientização dos moradores e sistemas de controle e cadastramento de visitantes e prestadores de serviços, de forma a, preventivamente, evitar ocorrências, sempre respeitando os limites da nova LGPD (lei geral de proteção de dados).

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