Sem papas na língua, Cortella fala sobre o papel dos pais e o atraso das reformas educacionais

Filósofo, educador e escritor de mais de 20 livros, Mario Sergio Cortella dá sua opinião sobre temas importantes da educação. Confira!

Crédito: Chico Max

Formação de pessoas: responsabilidade de quem?

Uma parte das famílias passou a confundir educação com escolarização. Educação é um processo mais amplo de formação, que é de responsabilidade direta dos pais. Durante muito tempo, a família ficava muito mais presente em relação à educação dos filhos, e, pouco a pouco, tentou-se terceirizar essa educação por meio da escolarização. O que é impossível. A escola tem de ser complementar, não suplementar. Isso aconteceu nas últimas três décadas, com o aumento das cidades e a ampliação das distâncias entre casa e trabalho. As pessoas passaram a viver muito distantes umas das outras, dos pais, dos avós, dos tios, dos primos, que, antes, ajudavam na educação. Para trazer de volta essa conscientização aos pais, as escolas vão precisar ajudar, com eventos, seminários, discussões, mostrando para a família o quanto é necessário que retornem à função de educadores. Outra forma de ajudar é não declarar em momento algum que ela é a responsável pela formação.

Crianças superprotegidas

Acho que a questão não é superproteção, é muito mais um aprisionamento das crianças em estruturas ou instituições nas quais se imagina que elas ficariam protegidas. Se fosse superproteção, os pais conviveriam muito mais com os filhos. Esse exagero de ocupações que os pais criam para os filhos me parece mais uma tentativa de impedir que a criança tenha tempo livre. Isso porque parte dos adultos não saberia o que fazer com as crianças nesse tempo. É muito mais para distrair do que de fato uma intenção formativa ou pedagógica. Uma pessoa interessada na formação de uma criança sabe que não pode deixar a agenda dela sem espaço de respiração porque isso impede a própria formação. Uma das coisas que mais ajudam a criar é ter tempo liberado.

Como essas crianças que têm a educação terceirizada para a escola e são aprisionadas num exagero de ocupações chegam à faculdade?

Com uma perspectiva muito negativa. Elas têm uma precocização do seu mundo de adulto, de responsabilidade, mas também têm uma postergação da sua infância e adolescência. Isso é: mais tarefas para fazer, portanto, mais responsabilidade; e menos autonomia, portanto, uma dependência maior. Elas chegam à universidade com quase nenhuma capacidade autônoma, aguardando a entrega das tarefas ao invés de construir e buscar por si mesmas. Isso acontece muito com os jovens de camada média, oriundos das classes A e B.

Crise do Ensino Superior?

O aumento da quantidade de faculdades é uma questão de mercado. O mercado se estrutura de acordo com a demanda que recebe. Esse boom da última década atendeu a uma ansiedade e a um direito de uma camada da população [C e D] que não estava sendo provido pelas estruturas de base pública. Mas a oferta também levou a uma precarização do ensino superior de larga escala. O que acontece é que o ensino superior no Brasil sofreu uma inversão. Há 40 anos, 20% das vagas eram no setor privado e 80% na área pública. Hoje apenas 20% são do setor público. E o setor público é aquele que investe em pesquisa, e não apenas em docência. Por isso, o ensino superior de natureza pública é muito mais qualificado. Essa inversão ajudou, então, na queda da qualidade, mas não foi a única responsável. Quando o ensino superior se torna só uma mercadoria, ele perde a intenção original formativa dele. O resultado disso é uma banalização. Se antes o ensino médio bastava para determinada colocação ou concurso, hoje, se não tiver ensino superior, você não faz. E esse ensino superior é um critério de seleção apenas. Não é o conhecimento que está sendo exigido. É a certificação que está sendo exigida.

Reforma do Ensino Médio

Esta reforma está sendo discutida há uma década, mas o atual governo é incompetente pra lidar com ela. Ela vinha sendo discutida pelo Conselho Nacional da Educação, de forma muito mais séria, mas não sairá do papel porque esse governo não tem como fazê-la. Não dá pra fazer essa reforma sem investimento financeiro. E houve um corte abrupto e forte dos mecanismos de financiamento. Hoje está muito mais no campo da propaganda do que da implantação. Da maneira como está sendo feita, ela é no máximo irresponsável. É uma tarefa de educadores, não dá pra deixar na mão de amadores uma reforma desse porte. Se esperarmos alguma coisa dessa reforma, vamos nos frustrar bastante.

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