No pinga-pinga do amor líquido

Domingo gelado, coração idem, posta a amiga da Vila Tolstói. No WhatsApp, ela relata casos, namoricos, ficâncias, fogos fátuos e outros eventuais acontecimentos do pinga-pinga do amor líquido

Andara a danada a fazer bom uso do Tinder, objetivíssimo aplicativo da internet para fins imediatistas. W., porém, não está nada bem. A frequência e o vazio dos encontros, relata, a deixaram numa ressaca dos diabos. Tento demovê-la pelo menos da parte moral do desespero – ainda não criaram o Engov da culpa. O domingo gelado não deixa. Dar mole para a tristeza em um final de domingo é o mesmo que botar o enfezado bode sartriano para tomar conta do capinzal da existência.

Tento confortar a moça da Vila Tolstói: Triste de quem fica desiludido(a) e evita outro amor de novo, cai no conto, blasfema, diz “tô fora”, já era, tira onda, ri de quem ama, pragueja e nunca mais se encontra dentro das próprias vestes. Como se o amor fosse um quiosque de lucros, a bolsa de mercadorias e futuro, um fiado só amanhã, um comércio. Como se dele fosse possível sair vivo, como nunca tivesse ouvido aquela parada de Camões, a do fogo que arde e não se sente, a da ferida, aquela sampleada por Renato Russo.

Triste de quem nem sabe se vingar do baque, nem sequer cantarola, no banheiro ou no botequim, “só vingança, vingança, vingança!”, o clássico de Lupicínio, o inventor da dor de cotovelo, a esquina dos ossos úmero com os ossos ulna (antigo cúbito) e rádio, claro, lição da anatomia e da espera no balcão da vida. Tudo bem não querer repetir, com a mesma maldita pessoa, os mesmos erros, barracos e infernos avulsos e particularíssimos. Triste de quem encerra o afeto de vez, como se aquela mulher e/ou aquele homem “x” fossem fumar o king size – duvidoso e sem filtro – lá fora e representassem o último dos humanos.

Chega do mané-clichê: todos os homens ou mulheres são iguais. Argh. São, mas não são, senhoras e senhores. Cada vez que uma folha se mexe no universo, a vida é diferente – acho que roubei isso da arte zen de consertar motocicleta. Todos os machos e todas as fêmeas são novidades. Podem até ser piores, uns mais do que os outros, porém dependem de vários fatores. Não adianta chamar o garçom-do-amor e passar a réguapara sempre por causa de apenas um traste. Como se essa miserável criatura representasse a parte pelo todo da panelinha do mundo.

Já pensou quantos amores possíveis você estaria dispensando por essa causa errada? E quem disse que amor é para dar certo? Amor é uma viagem. De ácido. E tem mais: a única vacina para um amor perdido é um novo amor achado. Vai nessa, aconselho! Só cura mesmo com outro. Mesmo que um placebo. Muitas vezes não temos o amor da vida, mas temos um belo amor da semana, da quinzena, que de tão intenso e quente logo derrete. Foi bonita a festa, pá e pronto. Vale tudo, só não vale o fastio e a descrença. Levanta desta ressaca amorosa, meu Lázaro, minha Lázara.

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