Ô, de casa

Não só de reclamações do barulho da festa vive uma vizinhança. Fizemos uma pesquisa e conversamos com especialistas e moradores do bairro para descobrir casos e histórias felizes de vizinhos. Conheça

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“O conceito de vizinhança está intimamente ligado ao de família. Isso quer dizer que, quando escolhemos onde vamos morar, estamos escolhendo uma família”, explica a antropóloga Isabela Oliveira. Por aqui, somos mais de 75 mil vizinhos, ou familiares, se você preferir, divididos entre casas e apartamentos. Esses condomínios formam várias microcomunidades onde é normal, por exemplo, um pai levar a molecada toda para o shopping; outro buscar na escola; e por aí vai… Isso está ligado a um termo chamado de coligação [se você assistiu ao documentário “O Começo da Vida”, já ouviu falar]. “Isso acontece quando as pessoas passam a morar vizinhas ou no mesmo quintal e assim se tornam todas corresponsáveis pela educação das crianças. Essa ideia parece nova, mas já acontece em Alphaville nos condomínios, há muito tempo”, conta Isabela. Um dos fatores que contribuem mais para isso é a segurança. “Como as pessoas se sentem mais seguras, elas se doam mais às relações e permitem mais interações, inclusive a educação dos próprios filhos pelos outros”, relata.

Há quatro anos no bairro, Mariana Andrioli concorda: “Sempre morei em São Paulo. Lá não saía na rua com tanta tranquilidade. Moro na Itapecuru, no condomínio Alpha Style, e faço tudo a pé. Isso facilita muito os encontros. Temos aquele ar de interior, onde as relações são mais próximas”, conta. Mãe da Catarina, de 4 anos, a amizade com a vizinha Fabiana ajudou bastante a construir essa relação com o bairro: “A Fabi mora aqui há 15 anos e meinfluenciou nas escolhas pessoais, como pediatra e comércio. Hoje tenho mais contato com ela do que com a minha irmã”, diverte-se.Quando se conheceram, as filhas tinham cerca de um ano. “No parquinho acabamos conhecendo outras famílias com crianças da mesma idade. Elas foram a fonte dessa amizade entre os pais. A Fabi é a mais próxima, fomos até viajar todos juntos no fim do ano”, conta. E não é só nessa hora que a amizade se sustenta: “Se der qualquer pepino, se uma precisar cuidar da filha da outra, estamos ali”, relata Mariana. Fabiana Politti, a amiga e mãe da Martinha, de 4 anos, destaca o que é preciso para garantir a boa vizinhança. “Antes eu morava em outro prédio que não tinha o perfil de crianças. Assim como os vizinhos, meu marido e eu trabalhávamos muito e ficávamos o dia inteiro fora”, relata. “Até que engravidei e fomos buscar outra opção. Essa questão do perfil é algo a ser levado muito em consideração. “Cresci no Alphaville 10, onde meus pais moram até hoje. Todos os amigos de bocha do meu pai são do condomínio, e minha mãe viaja com as amigas do residencial todos os anos”, diz.

Especialista quando o assunto é vida em condomínio, o advogado Márcio Rachkorsky concorda que a regra número um para viver feliz é encontrar um condomínio com o mesmo perfil que o seu. “Em geral, quem mora em prédio já tem de estar pré-disposto a ter uma relação mais próxima com os vizinhos. Afinal, em um prédio as áreas são comuns a todos. Se você prefere ficar no seu cantinho, o ideal é uma casa. Ou, então, procure um prédio mais antigo, com moradoresmais velhos e poucas áreas de lazer. Já os prédios com grande infraestrutura, por outro lado, são os mais indicados para crianças. E por aí vai…”, conta.

 

Me chama no Whats?

Uma ótima forma de reunir os perfis compatíveis dentro dos condomínios são os grupos no WhatsApp. Fábio Ohtsuki, morador do condomínio London Ville, na região do 18 do Forte, também sentiu na pele a necessidade de criar um grupo do condomínio no aplicativo de mensagens. “Eu via a quadra sempre vazia e decidi perguntar para o segurança se ninguém jogava bola. Ele disse que não, e decidi organizar um jogo. Primeiro, acionei um grupo de e-mails do próprio condomínio. Na hora, começou a chover mensagem, marcamos um dia, a rapaziada desceu e aí já criamos nosso grupo no Whats. E mesmo quem não joga desce para tomar uma cervejinha”, diz. O condomínio hoje também tem o grupo dos meninos da bike, o pessoal do tênis… “Mas a gente também usa o grupo para outras coisas: quando acaba a luz, avisam lá; se tem trânsito na Castelo, alguém sempre diz. O que fiquei muito surpreso mesmo foi quando me esqueci de comprar fruta para meu filho. Falei no grupo e um monte de gente ofereceu na mesma hora. Até gente que nem se manifestava muito no grupo.”Menos Hi-tech

Luciane Costa (amiga e vizinha de Fabiana e Mariana) tem um comunicador ainda melhor que o WhatsApp: seu filho Ruy, de 13 anos. “Ele conhece todo mundo do prédio e tem muito jeito com criança pequena. Moro no primeiro andar, de frente para a piscina, então, os pitoquinhos passam e chamam lá de baixo. Eu morro de rir!” Luciane não fica muito atrás: “Conheço uns 55 vizinhos. Moro em prédio, porque gosto de gente. Participo da comissão de festas. Fazemos noite havaiana, festa junina. Nem todo mundo tem Facebook, então, divulgamos nos elevadores, e vai aparecendo cada vez mais vizinhos. Quando chega a festa, vou lá, me apresento. Para mim, é uma feliz coincidência ter gente animada nesse prédio. Acho muito importante para a criançada. Graças a essa interação toda, eles aprendem a dividir e a respeitar”, conta, animada.

Rosane Zaidan, moradora do Victória II, na Alameda Grajaú, desde 2001, conta que a amizade com os vizinhos também começou com as descidas ao parquinho com a filha pequena, mas a amizade aflorou mesmo com uma das vizinhas. “Ela virou uma irmã mesmo. Uma sempre ajuda a outra. Se uma está doente, a outra leva ao médico. Se uma saiu e a filha chega da escola, fica na casa da outra. E o melhor: os maridos também ficaram bem amigos”, conta.De fora para dentro

Outra característica une os vizinhos da região: “Alphaville, no geral, tem muita gente que vem de fora. Como não têm família próxima, essas pessoas se aproximam dos vizinhos e fazem deles parentes. Como somos mineiros e nossos vizinhos, pernambucanos, unimos a cultura de receber um do outro”, conta Isabele Velloso, que mora no condomínio Ghaia há três anos, com o marido e os três filhos. “Quando nos mudamos, eles emprestaram a internet para a gente. Porque fazer a transferência da linha demorava um pouco”, conta. Hoje ela não pensa em outra vizinhança. “Com a minha vizinha da frente, é assim: faltou alguma coisa lá, ela pega aqui. Eu já olhei a gatinha dela, e ela o meu peixinho. Quando vamos viajar para nossa terra, sempre trazemos lembranças uns para os outros.” E finaliza: “Também conhecemos outros vizinhos e, nos fins de semana, fazemos churrasco, jogamos carteado. Os meninos são superamigos… A gente passa para as crianças que é bom ter amigos próximos”.Condomínios horizontais X condomínios verticais

No Tamboré 5 há 12 anos, Renata Costa tem a mesma relação de proximidade com os vizinhos. “A gente tem uma galerinha muito legal. Toda sexta-feira, tomamos cerveja juntos, comemos espetinho e jogamos truco”, conta. “Minha vizinha mais próxima, conheci quando ela estava de mudança. Ela foi procurar escola para a filha lá no Mackenzie, onde trabalho, e disse: ‘Estou vindo pra cá e ainda não sei nem onde vou morar. Estou perdida’. Na hora, eu disse: ‘Não está mais’. Já dei o telefone da corretora, que também é minha amiga. Falei: acabou de vagar uma casa no meu condomínio, você vai morar lá. Hoje nossas filhas estão na mesma sala na escola. Fazem inglês e natação juntas.” Renata é só boas histórias em relação à vizinhança: “Uma vez, minha máquina de lavar roupa quebrou no meio da lavagem. Não tive dúvida: levei tudo para lá. Atravessei a rua com o cesto, lavei, sequei, aproveitei e comi a pizza”, diverte-se.Já Bárbara Olivia, que morou por dez anos no Tamboré 6 e mudou-se recentemente para o condomínio vertical Green, conta que não percebe muita diferença nos relacionamentos na comparação casa versus prédios.
“Fiz grande amigos no T6. O grupo se reúne todo dia 29 para comer nhoque até hoje. Mas, em pouco tempo aqui no prédio, também já tenho grandes amigos”, conta. “Acho que aqui na região nós temos uma ‘rede do bem’. Quando falo, no trabalho, que tenho tantos amigos na vizinhança, ninguém acredita. Minha vizinha é madrinha da minha filha”, finaliza. Há 30 anos no Residencial 2, Jussara Rahal é outra que tem muitos amigos por aqui: “A melhor parte dessa convivência, para mim, é que ela faz bem para a saúde, principalmente mental”.Mas não é preciso morar no condomínio por anos a fio para criar grandes vínculos. Ana Luisa Carlessi Carboni, moradora do Residencial Itahyê há três anos, conta que já tem muitos amigos: “Por aqui, o que mais nos uniu foi o amor pelos bichinhos. Como o condomínio é mais isolado, aparece muito animal abandonado, e acabamos descobrindo que muita gente daqui gosta e quer ajudar. Hoje temos um grupo só para resgatar. É muito bom descobrir gente na mesma sintonia do ladinho”, conta.

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