O domingo não dá folga aos corações

É o domingo que pega, principalmente para quem perdeu o amor há pouco tempo. É o domingo que lasca

Você passa, de carona, involuntariamente, na frente da casa dela(e). O GPS do amor ainda mal resolvido berra qual um cabrito montanhês desmamado. Você acha que está resolvido(a) e encara, na buena, o almoço no restaurante que sempre ia com o(a) ex. Na sobremesa, a musse da melancolia amarga deveras no céu da boca. É o domingo que pega, da entrada ao café da despedida. Repito: é o domingo que pega, principalmente para quem perdeu o amor há pouco tempo. É o domingo que lasca.

Você pega a bicicleta, ventinho no rosto, maior sensação de que está liberta, ali na rota da ilha do Recife Velho… Quando dá fé, o traste do ex, que nunca dera uma pedalada na vida ao seu lado, todo fosforescente na companhia de uma biscate-sáude! É o domingo que pega na ciclovia dos amores perdidos. Não tem jeito. Ficar guardado em casa é pior ainda. O(a) ex virá nas fibras óticas, na frase de um livro, nos objetos cortantes, nas peças de cama, mesa e banho. A culpa é do domingo.

Durante o jogo de futebol, nós, os cavalheiros das mesas-redondas, ainda abstraímos um tanto. O time do peito divide a caixa torácica com as sístoles e diástoles de um amor que nos bateu a porta. Para a mulher, o domingo é ainda mais difícil. Mesmo que vá ao cinema com um delicado moço que tenta agradá-la e ocupar o posto dos combustíveis sentimentais da existência. Alguma coisa muito besta do novo candidato não irá agradá-la. Ele come pipoca de um jeito horrível, por exemplo. Se fosse outro dia qualquer, passava, mas acontece que é domingo. É o domingo que f*&%, data vênia, com o devido perdão pelo verbo. É o domingo que lasca feito maxixe cortado em cruz.

Não adianta disfarçar nos salões da SP Arte, como tentou uma amiga que acaba de me ligar em lágrimas. Óbvio que encontrou o vagabundo decifrando algum abstracionismo para a lesa Lolita do liceu do bairro. É o domingo que pega. Agora você devora a pizza da ansiedade e se ilude com folhinhas de rúcula por cima. Não adianta. Não é por estar cheinha ou magricela que a vida a desfavorece nessa maldita hora. É o domingo que, no seu sonso e inocente silêncio, maltrata qual uma furadeira elétrica. Para quem se achava curado(a) de um amor perdido, o melhor é que a maldita segunda-feira – o trabalho e os dias, santo Hesíodo! – dê logo as caras.

Compartilhe
Escrito por
Leia mais de Xico Sá

Amor é filme que vai melhorando com o tempo

Passado algum tempo, aquele encontro, aquele beijo aparentemente mais ou menos vai...
Read More

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *