O partido dos corações partidos

Se a vida dói, drinque caubói. Tente também a psicanálise, a terapia tradicional, o budismo, a macumba, os florais, a tarja preta, a reza forte

A velha política, livre de qualquer novidade, pega fogo, com toda sorte de mistificação e preconceito. A velha política pede abrigo no coração das trevas. Mas o que interessa, nesse momento, é o coração partido de Carolina, ainda menina para um amor tão punk-rock. Ela escreve a este cronista-conselheiro e diz que achava que a dor, nessas ocasiões, era apenas simbólica. Ela diz que dói no osso, nas articulações, na sola dos pés, do-in às avessas etc.

Eu digo: passa, não se avexe, mas tem o tempo disso, o luto, o processo. Ela pergunta: quanto tempo? Só o vento sabe a resposta, digo, num mix de título de livro de J.M. Simmel e versos de Bob Dylan. O partido de Carolina é o do mais óbvio e destroçado coração partido. Tem remédio? Se a vida dói, drinque caubói, receito, diante da gravidade da hora. Carolina nem sequer levou um pé-na-bunda, não rolou sequer o velho kichute do desprezo em desleais pontapés da trairagem. Carolina conta: simplesmente tomou conhecimento de que o miserável das costas ocas já havia mudado de mala e cuia para a casa da outra sem sequer avisá-la do triste ocorrido.

Se a vida dói, drinque caubói, repito meu velho mantra. Tente também a psicanálise, a terapia tradicional, o budismo, a macumba, os florais, a tarja preta, a reza forte. Nada disso vai dar jeito imediato, mas tente, menina, tente. A gente precisa ter uma ilusão de cura nesse momento. Viver também é placebo. Os amigos de esquerda, os colegas de direita, os queridíssimos anarquistas tentam falar de eleições com Carolina. Não tem jeito. Seu coração partido está imune a discursos. O partido do coração partido não consegue fazer alianças oportunistas. Não há segundo turno para os partidários do vexame amoroso. Carolina escuta Cat Power, Patty Smith, Wander Wildner, Tatá Aeroplano e Robertão das antigas. Carolina escuta também um pouco, só um pouco, também do Chico, afinal de contas, seu batismo é baseado na música homônima do cara: “Inútil dormir, a dor não passa”.

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