Perdidos pelo mundo

Reunimos aqui algumas histórias diferentes dos nossos ex-vizinhos aventureiros. Conheça!

Produzir a própria eletricidade, tratar a água para beber, pescar o próprio peixe e ter sempre flexibilidade para decidir o que fazer amanhã. Quem escuta essa descrição pode imaginar que só alguém que vive no campo, com poucas preocupações, é capaz de levar uma vida assim. Engana-se. Essa foi a escolha do jovem casal Sarah Moreira e Renato Matiolli. O mais curioso é que o local escolhido por eles para levar essa vida “mansa” não foi o alto das colinas, mas sim à bordo de um barco, cruzando oceanos. E eles são apenas um exemplo dos mais de três milhões brasileiros que, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores, estão se aventurando por aí.

Segundo dados do Itamaraty, uma “vida melhor” é sempre o principal motivo de partida dos brasileiros. E foi justamente isso que o casal Sarah e Renato buscou: “Queríamos fugir dessa rotina louca. Me sentia como um hamster naquelas rodinhas, sabe? Dá orgulho saber que hoje estamos conseguindo ter uma vida mais saudável”, conta Sarah.

Eles estão vivendo sobre as ondas há quase dois anos – começaram pelo Mar Mediterrâneo, atravessaram o Oceano Atlântico e hoje estão na região do Caribe; o próximo destino é atravessar o Oceano Pacífico. Deixaram o Brasil no início de 2015, quando o país ainda não estava tão mergulhado na crise econômica e política. Mas vale lembrar aqui um dado histórico: em anos de crise econômica, como foram as décadas de 1980 e 1990, mais brasileiros migram para o exterior em busca de oportunidades. Já em anos de crescimento econômico por aqui, como foi a primeira década dos anos dois mil, o país tende a atrair migrantes de volta. É importante pesar isso, pois a recente recessão que vivemos por aqui pode significar um novo alto fluxo de saídas do país.

Vivendo há seis meses em Amsterdã, na Holanda, o casal Caio Borges, 29 anos, e Julise Freitas, 28, está nesse grupo. “O momento político e econômico pesou bastante na decisão de sairmos do país, mas também sentíamos que já tínhamos extraído tudo o que o lugar tinha para nos oferecer. Queríamos explorar outro lugar”, conta Caio.

Assim como no caso de Sarah e Renato, a mudança foi muito bem planejada. “Primeiro, escolhemos o lugar que queríamos morar. Como trabalho na área de tecnologia, como engenheiro de testes, e esse mercado está em alta, comecei a aplicar para processos seletivos. E a oportunidade surgiu rápido”, diz.

Mas nem sempre a mudança é algo tão planejado assim. Emilia Sauaia, de 29 anos, está há cinco em Nova York. Ela deixou Alphaville em 2011 para estudar direção de cinema e de fotografia. “Precisava dessa mudança para continuar me inspirando e criando. Pra minha área, achei que NY seria o melhor lugar”, conta.

Deu certo! Nesse período, ela já filmou muitos curtas metragens – um deles, chamado Blemish, ela dirigiu, produziu, editou e fez a fotografia. “Filmei um documentário sobre as baleias no Alaska e um sobre tubarões em San Diego. Trabalhei em um projeto experimental muito legal chamado Tryptich, com dançarinos contemporâneos dentro de um teatro enorme – o projeto final foi exibido num telão enorme enquanto os artistas faziam a performance ao vivo junto com o vídeo. Fiz uma filmagem longa com uns músicos em um estúdio dentro de uma igreja abandonada no meio de Woodstock, em pleno inverno, neve por todos os lados. Ficamos lá durante 15 dias filmando esses 19 músicos de gêneros musicais tão diferentes que nunca haviam tocado juntos antes, criando sons incríveis ao lado do compositor Christopher Bono. Ganhei um prêmio de melhor fotografia com outro projeto chamado Constance Hersh, que foi um curte, e até fui dar aula de câmera e iluminação no Qatar”, relata, realizada.

Mas, claro, nem tudo são flores: “Depois de tanto tempo aqui, confesso que acho que está chegando a hora de ficar mais perto do que conforta meu coração e minha alma. Talvez eu volte para o Brasil por um tempo e depois vá para a Europa. Meu sonho sempre foi tentar a vida por lá. Estou realmente debatendo sobre sair de NY. A cidade é muito doida, você começa a viver um ritmo muito mais acelerado que o normal. Está sempre ocupada, correndo atrás de um retorno financeiro. Sobra pouco tempo para curtir mesmo a vida, viajar, conhecer outras culturas, pessoas. É a capital do mundo, como as pessoas falam, mas quase não sobra tempo para as relações humanas”, conta.

Para Bruno Ramos de Sousa, de 34 anos, que acaba de chegar de uma temporada de trabalho nos Estados Unidos, depois de ter morado no Paraguai, na Venezuela e na Argentina, há um “tempo mínimo” a ser vencido. “De todos meus amigos que seguiram morando fora, notei que tem uma hora, normalmente depois de cinco ou seis anos, que bate um cansaço, uma saudades de casa. Se você passa dessa fase, pelo menos nos Estados Unidos, acho que você já está muito adaptado ao modo de vida deles e dificilmente volta”, afirma.

É justamente essa fase que o bancário Fábio Fares, 37 anos, pretende enfrentar em breve. Vivendo com a família há dois anos em Connecticut, nos Estados Unidos, ele foi transferido pela empresa: “Viemos por causa do meu trabalho. Mas já era um objetivo e finalmente conseguimos concretizar. Viemos pra ficar. A ideia é se estabelecer aqui”, conta.

Foi o que Beatriz de Lorenzi, 35 anos, fez. Mas em outro continente. Ela saiu do país ainda muito nova, logo após terminar a faculdade de hotelaria, com o objetivo de se especializar na área. O projeto inicial eram seis meses de curso de francês na França e seis meses de especialização hoteleira em Zurique. Viraram 15 anos. “Fui fazer meu primeiro estágio na área em Londres e nunca mais fui embora”, conta.

No caso de Beatriz, a cidade realmente a cativou. Tanto que, recentemente, depois de mais de 10 anos trabalhando com hotelaria, ela decidiu mudar totalmente de área, mas sem abandonar o estilo londrino de viver: “Hoje, trabalho em um banco de desenvolvimento europeu que financia projetos em países do leste europeu e estados pós-soviéticos. Sou responsável pela parte administrativa de um dos departamentos do banco que lida com projetos na área de eficiência energética!”, conta.

CONFIRA ALGUMAS DICAS DOS VIAJANTES

 

MESA PARA QUANTOS?
Para todos esses ex-vizinho, apesar das dificuldades e das saudades da família no Brasil, o saldo da experiência no exterior tem sido muito positivo. E a coisa fica ainda mais interessante quando há mais um fator a ser levado em conta: filhos.

Para Fábio Frares, por exemplo, essa é a parte mais importante: “Essa é a segunda vez que moramos nos EUA. A grande diferença é que na primeira vez, entre 2006 e 2008, não tínhamos filhos. Hoje temos dois meninos de seis e quatro anos, que chegaram aqui com dois e quatro, respectivamente. A melhor experiência que eu e minha esposa estamos tendo é ver nossos filhos totalmente adaptados à nova cultura, à língua, à sociedade que eles vivem, aproveitando as oportunidades que surgem para eles. Temos a certeza que todo esse investimento que fizemos vindo morar aqui será extremamente proveitoso para eles no futuro”, conta.

Mariella Righetto, 43 anos, tem boa experiência nessa área. Há um ano em Kingston, no Canadá, ela é casada e mãe de três filhos, trigêmeos, de 13 anos. “Sou fisioterapeuta, mas desde que as crianças nasceram meu trabalho é ser mãe”, conta. “Resolvemos sair do país em busca de mais qualidade de vida, e também um pouco por conta do medo da crise econômica que estava prestes a chegar. Viemos eu, meu marido e as crianças. E o mais legal é que elas se adaptaram muito bem. Rapidamente fizeram vários amigos. Depois de quatro, cinco meses já eram fluentes na língua. Mas as maiores mudanças foram nos conceitos básicos de vida. Viver em comunidade, ver que a comunidade vem antes que o indivíduo. Aqui, precisamos aprender algumas coisas como fazer a reciclagem adequada, como lidar com o jardim, afazeres da casa, conviver com a neve, etc. Isso é muito bacana”, relata.


paisesNÚMEROS
Quase metade dos 3,1 milhões de brasileiros que vivem fora do país está nos Estados Unidos. De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores são 1,3 milhão de por lá. Em seguida, vem o Japão com mais de 230 mil brasileiros e, depois, o Paraguai, onde vivem 200 mil


ALMA CIGANA
E não é preciso montar acampamento em um lugar fixo para oferecer uma experiência como essa para os filhos. Camila d’Avila, de 38 anos, mora atualmente em Paris, com o marido e a filha de 8 anos. Mas, nos últimos 10 anos, esteve em 55 países. Desses, eles moraram em três. E a filha os acompanhou em pelo menos 54. “Sempre tive meio que uma ‘alma cigana’. Minha filha, claro, me acompanha. Viajei sozinha, pela primeira vez, aos 15 anos – fiz um curso de italiano na Itália, que foi meu presente no lugar da tradicional festa de debutante. Foi quando tive a certeza de que não ia conseguir ficar parada em um só lugar. Às vezes, me preocupa pensar que minha filha pode ser como eu. Sempre falo que se ela for embora, pego minhas coisas e vou atrás”, diverte-se.

Mesmo assim, ela garante que o legado para a família toda vale qualquer risco: “O mais legal é a oportunidade de viajar, aprender e crescer com cada experiência. Aprendemos línguas diferentes, vivemos culturas diferentes. Uma vez, no Camboja, fomos convidados a compartilhar um lanchinho composto de cobra e ‘vinho de arroz’ com uma família em uma vila rural; outra família nos convidou para dividir uma ceia de Tet (Ano Novo) no Vietnam; aprendemos trapézio aéreo nas Ilhas Mauricio; tive a honra de conhecer e conversar com um ex-prisioneiro de Robben Island (onde Nelson Mandela foi também prisioneiro) na África do Sul; e de conhecer uma das mais jovens sobreviventes do Holocausto aqui em Paris”, relata. Para a filha, então, nem se fale: “Ela aprendeu a ter tantos amigos de religião, cor, raça diferentes, que ela é simplesmente incapaz de enxergar essas ‘diferenças’ que as outras pessoas veem. Ela também aprendeu que, para conversar com pessoas diferentes não precisa, necessariamente, falar a língua. Só o toque, a linguagem corporal, a risada… Ela vai levar isso para a vida e isso é o meu maior orgulho”, conclui.

É claro que algumas coisas, como a questão profissional, nem sempre foram fáceis para Camila nessa vida cigana: “Me formei em psicologia no Brasil. No começo foi difícil, porque você estuda tanto tempo para ter uma profissão e, de repente, seu diploma não vale nada. É frustrante ter que começar quase do zero! Por outro lado, foi uma ótima oportunidade de me reinventar e descobrir coisas que eu gostaria de fazer e não teria realizado se tivesse continuado no Brasil. Hoje, por exemplo, a fotografia é um hobby sério para mim, mas infelizmente não vivo dela. No momento, dou aulas de inglês e trabalho como interprete e tradutora, faço parte de um grupo de teatro musical e trabalho como voluntária em um banco alimentar que coleta e distribui alimentos para aqueles que precisam”, conta.

DE VOLTA PRA CASA
Uma coisa é certa: tanto para quem foi para o exterior já com uma oportunidade de trabalho bem definida como para quem acabou por descobri-la ou reinventá-la por lá, o crescimento profissional que todas as experiências de viver foram trazem é muito significativo. E ainda é possível trazê-lo de volta para casa.

Depois de pouco mais de dois anos vivendo em Orlando, nos Estados Unidos, Carla Xavier, 33 anos, está voltando para o Brasil nos próximos meses. “Vim para abrir abrir uma filial da empresa em que eu trabalho aqui. O trabalho foi realizado, está tudo funcionando por aqui e agora estou me preparando para voltar e ficar mais próxima do operacional da empresa, que ficou no Brasil”, conta. “O know-how que a gente teve com essa expansão, me preparou para abrir ouras filiais em qualquer lugar do mundo. Por isso, agora eu volto, com o peso da responsabilidade, mas muito feliz e realizada”.

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