Ricardo Amorim: “O Brasil não precisa da reforma da Previdência?”

Não há problema nenhum em ser contra a reforma da Previdência, mas não dá pra basear a discussão em mentiras

Os principais argumentos de quem acha que não há necessidade de reforma da Previdência costumam ser:

1. a Previdência não tem déficit, tem superávit;

2. os problemas são a corrupção nas dívidas das empresas e a DRU;

3. os servidores públicos merecem se aposentar mais cedo e receber benefícios maiores do que os trabalhadores da iniciativa privada porque suas contribuições para a Previdência são maiores do que a dos outros;

4. o único problema são as mega-aposentadorias e pensões de políticos e juízes.

Tenho uma proposta irrecusável para quem acredita nos argumentos acima. Primeiro, cobramos cada centavo devido pelas empresas. Depois, acabamos com a DRU. Em seguida, acabamos com as mega-aposentadorias de políticos, juízes e do Ministério Público, igualando-as às regras do INSS. Aí, somamos todas as receitas e verificamos o total da arrecadação. Por fim, já que supostamente a Previdência teria um superávit e que as contribuições seriam compatíveis com os benefícios, redefinimos o benefício de cada um, dividindo o total arrecadado proporcionalmente pelo que cada um contribuiu. Assim, haveria justiça – cada um receberia de acordo com quanto contribuiu –, os benefícios supostamente cresceriam – pois o tal superávit da Previdência seria transformado em aumento de benefícios – e as contas da Previdência estariam absolutamente equilibradas.

Topa? Se você realmente acredita nos quatro argumentos acima, não há como não topar. Só haveria ganhos… Caso contrário, você tem de reconhecer que os argumentos são falsos.

Não há problema nenhum em ser contra a reforma da Previdência e reconhecer que, na realidade, a Previdência tem um déficit que não para de crescer e que só neste ano será próximo a R$ 400 bilhões; que a cobrança do pagamento integral da dívida das empresas e municípios tem de acontecer, mas não fará cócegas no déficit; que a DRU não só não tira recursos da Previdência, mas também financia o déficit da Previdência; que a contribuição de servidores civis e militares não chega nem perto de bancar os benefícios excessivamente generosos que eles recebem e que o buraco da Previdência do setor público vai muito além de juízes, políticos e do MP. A única coisa é que, nesse caso, você precisa também admitir que acha justo que anualmente mais de R$ 400 bilhões que deveriam ir para saúde, educação, infraestrutura, segurança, etc. sejam redirecionados para bancar aposentadorias e pensões acima do que os recursos da própria Previdência conseguem bancar. Não há nada errado nisso – apesar de eu discordar completamente. O que não dá é para basear a discussão em mentiras.

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