Ricardo Amorim: “A recessão acabou. Mesmo?”

O impacto que a economia terá na vida das pessoas ao longo de 2017 deve ser bem melhor do que o crescimento do PIB

Num dia, o ministro Henrique Meirelles decretou o fim da recessão. No outro, foi divulgado o PIB: oitava que da consecutiva e retração de 3,6% em 2016. Segundo o ministro, esses dados refletem o passado. Tecnicamente, o ministro tem razão. Por que, então, as pessoas se atêm à imagem do passado? Como formar uma imagem do futuro mais realista do que uma mera fotografia do retrovisor? Aí é que entram os indicadores antecedentes. Eles mudam de direção antes da economia como um todo, apontando o caminho que vem na sequência.

Curva na economia, é isso que vários indicadores têm apontado: comparando janeiro com dezembro,
descontando-se a sazonalidade, o tráfego de veículos leves nas rodovias cresceu 1,6%, indicando que as
pessoas estão viajando mais; as vendas nos supermercados cresceram 1%, mostrando recuperação no consumo; as vendas de papelão ondulado, que indicam a demanda por embalagens, cresceram 1,8%; as importações de bens intermediários cresceram 1%; a produção de motos cresceu 9,1%. Se sustentadas ao longo de todos os meses do ano, essas taxas de crescimento fariam com que, em dezembro, esses indicadores fossem entre 12,7% e 184,4% maiores do que em dezembro do ano passado.

Na comparação com janeiro de 2016, a produção da indústria cresceu 1,4%, a primeira alta em três anos, e os investimentos de empresas estrangeiras no país foram os maiores da história, sinalizando que os gringos estão mais confiantes do que nós com nosso país. Na comparação com janeiro, em fevereiro o emplacamento de veículos comerciais leves cresceu 11,6%, e a confiança do consumidor, 2,5%. Consumidores mais confiantes gastam mais, alavancando as vendas das empresas. Vendendo mais, empresas contratam mais trabalhadores, aumentando a renda da população e o consumo, em um círculo virtuoso.

Esses dados são insuficientes para sermos taxativos sobre a tendência futura da economia, mas há ótimas razões, começando pela queda dos juros e a perspectiva de aumento do crédito e, por tabela, do consumo e investimento, para crer que a recuperação tem tudo para se sustentar. A inflação está em queda livre, o que tem permitido e continuará a permitir que o Banco Central corte a taxa de juros. Essa perspectiva estimula os bancos a emprestar, o que deve fazer com que a oferta de crédito volte a crescer.

Mais: em janeiro, o número de pessoas que perderam o emprego já foi menor. O desemprego costuma
ser a última das variáveis econômicas a responder a mudanças de cenário econômico. Apesar disso tudo, é importante manter expectativas realistas. A queda do PIB em todos os trimestres do ano passado garante que, na melhor das hipóteses, teremos um crescimento ínfimo do PIB neste ano. A sensação que teremos da economia e o impacto que ela terá na vida das pessoas ao longo de 2017 serão bem melhores do que a variação do PIB vai sugerir.

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