Rodrigo Martins: “Quem tem medo da transformação digital?”

Com a transformação digital, o contador tornou-se um verdadeiro agente de transformação das empresas. A profissão não será extinta, mas está sendo aprimorada

Quando falamos em tecnologia e esbarramos em histórias fantásticas de como empresas gigantescas, como Kodak e Blockbuster, sucumbiram diante da engenhosidade de outras “novatas”, como Canon e Netflix, nos deparamos com um pavor de que tudo aquilo que levamos a vida toda para construir simplesmente caia em desuso. E tudo isso acontece por culpa dessa grande vilã chamada transformação digital.

Mas temos em vez disso, a partir destas famosas reestruturações de mercado, a oportunidade de aprender com os erros do passado e não cometê-los novamente em nossos próprios negócios, sejam eles pequenos, médios ou grandes.

Lição número um: a tecnologia irá evoluir e, invariavelmente, atingir todas as instâncias do universo corporativo. Isso independe de nossa vontade de que as coisas sigam como sempre foram para que possamos ter lucros da forma como sempre tivemos. Quanto antes você se conscientizar desta dolorosa, mais implacável verdade, melhor, pois terá mais chances para adaptar-se ao novo.

Lição número dois: nada se perde, tudo se transforma. Nem na natureza – nem no ambiente de negócios – as coisas se perdem sem propósito algum, de uma hora para outra. Esse medo de que tudo em que você acreditou deixará de existir é simplesmente falta de conhecimento sobre um universo de possibilidades que se expandirá quando você abrir sua mente para vislumbrar o novo. A tecnologia sozinha não transforma nada por si só, é inanimada por sua natureza. Por trás dela está toda bagagem que foi acumulada durante anos por pessoas comuns executando suas atribuições de forma analógica, porém analítica e evolutivamente. O digital é só uma ferramenta que encurta as distâncias entre o produto/serviço e seu cliente, criando uma experiência fantástica de relacionamento com o usuário neste intervalo.

Lição número três: uma vez que você domine a essência de seu segmento ou área de atuação, não existirá transformação que possa anular seu propósito. Por trás de cada rótulo que determine a atividade econômica de sua empresa existe um conceito mais profundo, que a move e justifica sua existência. Este é o único atributo permanente diante de tudo em que está se transformando no mercado. Tudo o mais é transitório. Tenha consciência: as mudanças não pararão por aqui, muito pelo contrário, ainda existe muito por vir, mas se você souber trabalhar corretamente sua essência durante este processo, não passará por apuros.

Lição final: reconheça a importância de sua trajetória, mas desapegue daquilo que não pode ser carregado na bagagem para dar o próximo passo rumo à transformação digital de sua empresa. Muitos empreendedores reconhecidos por suas habilidades contundentes ficaram parados no meio da estrada, pois insistiram em carregar malas pesadas demais para esta viagem rumo ao futuro, que dispensa excessos. Outros, mais abertos às possibilidades da tecnologia, começaram suas jornadas com muito pouco e foram capazes de criar verdadeiros impérios a partir do completo nada, apostando unicamente em sua visão estratégica.

A transformação digital na contabilidade

Entre diversos segmentos que tiveram suas estruturas abaladas pelo avanço da tecnologia, o contábil, sem dúvida alguma, foi um dos mais afetados. Como empresário deste setor específico, me sinto confortável para compartilhar minha experiência pessoal no que diz respeito à visão estratégia e postura que podem significar a sobrevivência de empresas contábeis no mercado.

Falamos de como a essência e o propósito de existência de seu negócio pode ser o motor que o mova diante de qualquer ruptura crucial. Dados do IBGE apontam que 42% das empresas fecham as portas antes de completar cinco anos. As principais causas estão ligadas ao fluxo de caixa e em como administrar o negócio, segundo relatório da Endeavor – Empreendedores Brasileiros Perfis e Percepções (2013). 

O contador é o profissional mais preparado para ajudar nesses dois pontos, pois está próximo do empresário, conhece suas forças e franquezas e pode ajudá-lo a explorar as oportunidades e se proteger das ameaças. Uma pesquisa da ContaAzul, realizada em julho de 2015, com 5.102 clientes, apontou que 74% gostariam de ter o contador atuando mais próximo como um consultor de negócios. A contabilidade do futuro gera essa interação entre o dono do negócio e o contador, ajudando na análise e tomada de decisão.

O contador, portanto, está em posição privilegiada. O profissional tem contato com diferentes tipos de empreendedores e negócios, podendo levar as boas práticas de gestão e dar para o cliente o mais valioso ativo: o tempo.

Como iniciar a transformação?

Muitos contadores já reconhecem a necessidade de adotar uma postura mais consultiva, mas não sabem como fazê-lo, não sabem por onde começar. É preciso fazer uma mudança radical e profunda de mentalidade. A prioridade passa a ser a transformação na vida do empresário e não o cumprimento das obrigações legais.  O profissional deve passar a se identificar como contador consultor ou consultor contábil e defender essa abordagem com a equipe, passando a educar o cliente e não somente a processar as suas obrigações.

É necessário também quebrar a objeção de que “isso tudo é muito bonito, mas na prática o cliente não manda documento financeiro para o escritório, omite informações, é desorganizado, não valoriza o contador, não está disposto a pagar …”. Esses são pensamentos de quem ainda está com a mentalidade de contador tradicional, aquele que só “cumpre tabela”.

O contador consultor é aquele que usa as técnicas de gestão, como a segmentação de mercado (marketing). Nem todo empresário está pronto para a contabilidade consultiva e é preciso selecionar qual é o seu cliente-alvo. Além disso, cada uma dessas falhas é uma oportunidade para educar o empresário. Muitas vezes ele não manda documento porque ninguém nunca o ensinou o que mandar, por que e como mandar. Se ele não sabe fazer o controle financeiro, existe a oportunidade de você fazer a gestão financeira por ele.

Outro ponto importante da mudança é a necessidade do aprendizado constante. Manter-se atualizado com a participação em eventos e palestras, cursos de MBA, livros, o acompanhamento de canais como o Contabilidade Consultiva e influenciadores digitais e a participação em grupos de debates. Transformar a gestão da sua empresa contábil, implantando boas práticas de gestão internamente, junto com a sua equipe. Implantar o controle financeiro, contabilidade gerencial, reuniões de controle em cada setor, modelar os processos e acompanhar indicadores de desempenho.

O contador só será capaz de transformar a empresa dos clientes se for capaz de transformar a sua própria, conhecendo todos os ônus e bônus da mudança na gestão. O processo é doloroso e lento, mas necessário. Assim, conseguirá transformar a empresa do cliente, implantando todas as boas práticas de gestão. O resultado será gratificante: ajudar o cliente a ter mais sucesso, seja com mais tempo com a família, mais dinheiro no bolso, mais transparência, mais segurança e realização profissional.

Como a tecnologia pode ajudar?

A tecnologia não trouxe uma nova ameaça com a contabilidade online, mas uma oportunidade! No contexto da contabilidade tradicional, contadores e clientes trabalham desconectados, com informações diferentes, desatualizadas e atividades manuais. A digitação e o retrabalho são os vilões da produtividade entre empresário e o contador.

O contador da Era Digital trabalha com os dados do cliente em tempo real. Os softwares em nuvem geraram impacto no mercado contábil, dispensando o envio de documentos físicos para o contador e informações avulsas. Há uma integração contábil entre o sistema financeiro e fiscal do cliente e o software contábil, que permite acompanhar a situação das empresas em tempo real. Um apoio para a gestão financeira, sem papel ou arquivos. A tecnologia já impacta a produtividade, com a redução do retrabalho e digitação. Mais tempo para pensar na experiência entregue ao cliente.

Com a transformação digital, o contador tornou-se um verdadeiro agente de transformação das empresas. A profissão não será extinta, mas está sendo aprimorada. E resgatando as origens, como ciência da riqueza e da prosperidade. Deixa de ser coadjuvante a protagonista para o sucesso do país.

Rodrigo Martins é empresário e empreendedor contábil, há mais de 20 anos como sócio-proprietário da Segura Contabilidade. Diretor financeiro da Associação Comercial e Industrial de Barueri. Incentivador e defensor do micro e pequeno empresário.

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