Soluções urbanas para nossas cidades

Eduardo Soveral fala sobre a urbanização no Brasil, mais especificamente de Alphaville

A seguir o atual padrão de urbanização, em médio prazo estaremos frente a um verdadeiro genocídio das cidades brasileiras. Enquanto muitas cidades no mundo apostam no fim do automóvel, por seu impacto ambiental baseado no individualismo, e reinvestem no transporte público, mais racional e menos impactante, nossas municipalidades continuam a promover o privilégio exclusivo dos carros.

Não tem como sobreviver uma cidade que gasta milhões em túneis e pontes, em muitos dos quais, pasmem, os ônibus são proibidos. E que faz desaparecer seus rios e suas árvores, devorados pelas avenidas expressas. Nenhuma economia no mundo pode pretender sobreviver deixando que a maioria de seus trabalhadores perca uma meia jornada por dia – além do duro dia de trabalho – amontoada nos precários meios de transporte ou dentro de automóveis.

Uma cidade que permite o avanço descontrolado do mercado imobiliário (muitas vezes, com a participação ativa de funcionários das próprias prefeituras), que desfigura bairros inteiros para fazer, no lugar de casas pacatas, prédios que fazem subir os preços a patamares estratosféricos e assim se oferecem apenas a grupos muito restritos; prédios que impermeabilizam o solo com suas garagens e aumentam o colapso do sistema hídrico urbano, que chegam a oferecer dez ou mais vagas por apartamento e alimentam o consumo exacerbado do automóvel.

Condomínios que se tornaram fortalezas, que se isolam com guaritas e muros eletrificados e matam assim a rua, o sol, o vento, o ambiente, a vizinhança e o convívio social, para alimentar uma falsa sensação de segurança.
Nosso Centro Comercial, que poderia não estar cercado por grades hostis, tem enorme vocação reprimida para ser um polo aglutinador de moradores interessados em usufruir de um bom espaço público para, por exemplo, tomarem um sorvete em uma bela noite de verão, encontrando todo tipo de pessoa (condição necessária para termos uma cidade de verdade), o que se torna muito mais difícil com a configuração que vemos atualmente.

Ocorre que falamos de cidades onde há tempos não se discutem mais democraticamente seus planejamentos, impondo-se a “toque de caixa”, políticas caça-níqueis ou populistas, com forte caráter de segregação. Nenhuma comunidade, nenhuma empresa, nenhum bairro, nenhum comércio, nenhuma escola, nenhuma universidade, nem uma família, ninguém pode sobreviver com dignidade quando todos os parâmetros de uma urbanização minimamente justa, democrática, eficiente e sustentável foram deixados para trás. E que se entenda por “sustentável” menos os prédios “ecológicos” e mais nossa capacidade de garantir para nossos filhos e netos cidades em que todos – ricos e pobres – possam nela viver.

Em termos de transporte, crucial para nossa região, a partir do momento em que o investimento trouxer uma qualidade melhor do serviço público, pode-se começar a taxar a utilização do carro, diminuindo a circulação. Por enquanto é muito complicado. Cria-se um preço alto para a pessoa sentir no bolso o uso de um carro, mas o que se oferece em contrapartida é muito ruim. Não existe condição política de se colocar em prática esse tipo de atitude, mas a partir do momento em que houver investimento pesado em transformação da modalidade do transporte, pode-se fazer com que as pessoas migrem para o serviço público. Essa é a única solução possível depois de um período de seis ou oito anos.

De positivo, a vontade da nova administração de Barueri em escutar a sociedade, grupos organizados da sociedade civil, associações de moradores e etc…Entendemos que o planejamento do território da cidade que, mesmo sendo privado na escala do lote, é público na sua apreensão mais ampla e é uma prerrogativa do poder público, pois ele tem enorme poder, o de dar a “cara” da cidade e fazer com que sua configuração, no futuro, seja mais ou menos democrática, mais ou menos pública, mais ou menos bem resolvida.

O argumento da PPP (Parceria Público-Privada), sempre utilizado para justificar uma ação mais rápida e eficaz do poder público, não significa entregar ao setor privado os processos decisórios sobre como será a cidade. E planejamento urbano é isso, é decidir como será a cidade. Finalmente, esperamos que com a ajuda de todos e uma ação eficaz, séria e, sobretudo, profissional por parte da Prefeitura, possamos colocar Barueri num patamar digno das melhores cidades do mundo. Ideias não faltam. É possível.

Eduardo Soveral é arquiteto formado pela FAU-USP, tendo mais de 30 anos de experiência, tanto em urbanismo, arquitetura de edificações, como de interiores. Trabalhou na Secretaria Municipal dos Transportes de SP, foi membro da Associação Viva o Centro e do Pró Centro, arquitetos de inúmeras edificações.

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