Votando pela incerteza

Logo quando o Brasil tenta voltar a se abrir ao mundo após sua recente transição política, o nacionalismo isolacionista ganha força de vendaval mundo afora

A vitória de Donald Trump coroou o fortalecimento global de movimentos que expressam uma
insatisfação generalizada com os políticos. Eleitores mundo afora têm preferido votar pela incerteza. Consistentemente, as pesquisas eleitorais erraram e não previram a saída do Reino Unido da União Europeia, nem a derrota do acordo de paz na Colômbia, muito menos a vitória de Trump nas eleições americanas.

Há décadas a América Latina tem sido terreno fértil para demagogos populistas. Paradoxalmente, quando a América Latina está dando adeus a populistas de esquerda – Kirchner na Argentina e Dilma no Brasil, por exemplo –, demagogos populistas de direita ganham espaço a passos rápidos na Europa e nos EUA.

Longos períodos de baixo crescimento econômico e forte concentração de renda são o terreno ideal para os vendedores de milagres. Nessas condições, a extrema esquerda culpa os mais ricos pelas más condições econômicas do resto da população. Já a extrema direita culpa os estrangeiros e inflama a xenofobia e o ultranacionalismo. Culpar mexicanos, chineses e árabes pelo desemprego dos americanos foi um dos principais pilares que levaram à vitória de Trump nas eleições.

Responsabilizar os refugiados pelas dificuldades do Reino Unido levou ao Brexit, à atual liderança da extrema direita de Marine Le Pen na campanha eleitoral na França, e a governos de extrema direita na Áustria e na Hungria. Dependendo do resultado do referendo de dezembro, possivelmente a Itália leve ao poder o Movimento Cinco Estrelas, que pretende tirar a Itália da Zona do Euro.

Logo quando o Brasil tenta voltar a se abrir ao mundo após sua recente transição política, o nacionalismo isolacionista ganha força de vendaval mundo afora.

Além disso, a eleição de Trump coroa um movimento global contra políticos tradicionais. A rejeição
generalizada a eles abre espaço para novas lideranças – populistas ou não. Isso representa tanto uma oportunidade para mudanças necessárias e positivas quanto o risco de fortalecimento de pretensos salvadores da pátria que oferecem falsas soluções simplórias e sem sacrifícios para um eleitorado sedento por melhoras rápidas e indolores.

Por fim, a insatisfação generalizada e o analfabetismo econômico e histórico de boa parte do eleitorado mundial têm levado ao poder, pelo voto, líderes antidemocráticos que colocam o futuro da própria democracia em risco. Trump, por exemplo, afirmou na véspera de ser eleito que só reconheceria os resultados das eleições se ganhasse. A democracia já viveu dias melhores.

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