Waltinho Nascimento: “A união é força”

O debate sobre preconceitos vive um momento delicado. Sem dúvida é fundamental em qualquer sociedade da luta contra esse tipo de atitude. Mas tão importante quanto lutar, é saber como lutar

Li recentemente que o deputado Alexandre Frota apresentou proposta de projeto de lei que pune clubes de futebol por atos homofóbicos ou de racismo de seus torcedores em estádios.

Fora o momento de não sabermos quando torcedores voltarão aos estádios, e o fato óbvio de que qualquer tipo de preconceito me parece atitude de pessoas ressentidas e confusas com seus próprios demônios, me pergunto se o deputado em questão tem mesmo interesse em combater essas monstruosidades, ou quer embalar na narrativa do momento e “lacrar” para garantir mais alguns votos, daqui um ano e meio.

O debate sobre preconceitos vive um momento delicado. Sem dúvida é fundamental em qualquer sociedade decente a luta contra esse tipo de atitude. Mas tão importante quanto lutar, é saber como lutar. Nesse caso, em oposição a minha sensação sobre o racista, ter inteligência é fundamental, pois o que temos visto no Brasil (e no mundo) é um tipo de resposta, um rebote, pra usar um termo esportivo, que tem trazido atrasos nesse embate tão importante.

Um exemplo bem claro de erro na forma de conduzir o assunto foi visto no Big Brother Brasil 21; um participante do programa chamado Rodolfo, ao ter que usar uma peruca de “homem das cavernas”, virou para seu amigo, que também iria usar o adorno, e brincou que a peruca iria suprir o que a genética não lhe ofereceu: cabelo em abundância. Logo em seguida, virou para outro participante do programa e comparou a peruca a seu cabelo, um belo Black Power.

A primeira brincadeira passou desapercebida, já a segunda virou motivo de crucificação. Taxado de racista, o rapaz ouviu sermão de companheiros, apresentador do programa e da mídia em geral. Mas quem assiste ao programa sem o desejo quase sádico de jogar na fogueira o dono do primeiro deslize que pintasse, viu que o rapaz não é um racista. É, no máximo, uma pessoa que pode ter um pouco mais de atenção e inteligência no lidar de certas relações.

Hoje, o debate público que propõe diversidade, tenta na verdade debater com o espelho. A gente sabe que o preconceito está na pessoa que não consegue transpor a cor do outro ao se relacionar com ela. E assim, quem viu a cena citada no BBB sem enxergar cores, viu uma pessoa brincando com dois amigos. Ainda que quem recebeu a brincadeira tenha total direito de não gostar, e recriminá-la, jogar Rodolfo aos leões só traz o tal rebote do cidadão comum, que em sua intimidade brinca com os amigos, sendo eles brancos ou pretos.

Temo que esse tipo de atitude dos inquisidores de Rodolfo, traga como consequências no Brasil, lideranças que cada vez mais tenham respostas simples para problemas complexos, e a gente se jogue cada vez mais nesse buraco sombrio de atrasos em que estamos vivendo.

A resposta na luta contra o preconceito é a união, não a crucificação em praça pública. Trazer para perto do debate a pessoa que não é racista mas possa ter feito uma piada –  ou até um erro de posicionamento sobre esses debates tão importantes – é a única forma de vencermos essa herança horrível que nossa sociedade ainda possui.

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