Waltinho Nascimento: “O Eterno Complexo de Vira-Lata”

Sessenta e poucos anos e cinco Copas conquistadas depois, aparentemente estamos a reviver nosso complexo de vira-latas do mundo.

Chegando à final da polêmica Copa América de 2021 e analisando todo o debate que o torneio despertou no Brasil, é impossível não se lembrar do saudoso e necessário (caso você não tenha lido nada sobre), Nelson Rodrigues.

Nelson vai muito além do que o raso conhecimento popular sobre ele diz hoje: reacionário, putanheiro.

Nelson Rodrigues era quase um filósofo, um criador de fatos sensacionais e, um grande analista de futebol. Não analista tático, técnico, mas da alma do esporte mais popular do mundo – pra quem curte leituras esportivas aconselho a leitura do livro “O Berro Impresso nas Manchetes”.

Em suas crônicas, ao analisar os defeitos e qualidades de nossos jogadores (e cidadãos, por que não?) da época, o escritor identificou um sentimento de inferioridade em nosso povo que seria o principal obstáculo para a conquista da tão desejada Copa do Mundo. Por sermos uma mistura de raças, uns vira-latas, a gente não se sentiria digno de tamanha conquista. Daí a expressão “Complexo de Vira-Lata”. 

E qual seria o caminho para ultrapassar essa barreira? Se orgulhar de sermos esse tipo híbrido! Nossa miscigenação seria justamente nossa melhor qualidade, a nossa forma de transpor limites.

A conquista da Copa de 1958 em cima dos “raça pura suecos” teria sido a nossa alta da terapia, a superação de nosso complexo.

E aí a Copa América de 2021, rejeitada por questões sanitárias decorrentes da pandemia da COVID-19 em suas anfitriãs originais, Argentina e Colômbia, veio parar aqui, e o debate político polarizado voltou a ganhar as redes sociais. “Presidente genocida não liga para a saúde do povo”, disseram os extremados de um lado. “A Copa América só tem 28 jogos, menos do que uma rodada de campeonato brasileiro (se contarmos todas as divisões)”, bravaram radicais da outra ponta.

Tentando ir além dessas racionalidades sórdidas, e como Nelson, tentando se livrar das ideologias vulgares – “só o canalha precisa de uma ideologia que o justifique e o absolva”, dizia o cronista – uma pergunta me vem à mente: Precisávamos desse tipo de polêmica agora? Precisávamos assumir o custo do evento morno, rejeitado por outros?

Sessenta e poucos anos e cinco Copas conquistadas depois, aparentemente estamos a reviver nosso complexo de vira-latas do mundo.

Certas posições devem ir além do debate racional. Como diria Adam Smith, certas posições são consequências dos nossos sentimentos morais.

Depois não adianta se ofender quando o idiota do presidente argentino vier nos chamar de selvagens.  

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