Waltinho Nascimento: “Só sei que nada sei”

Em tempos de quarentena, um paralelo entre o astro do esporte Michael Jordan e o filósofo grego Sócrates

Como ocupar a cabeça nesses tempos de quarentena? Um pouco de trabalho (para muita gente, pouco mesmo, infelizmente), um pouco de atividade física pelas ruas surpreendentemente cheias, onde pais (de crianças e de pets) passeiam em busca de um pouco de sanidade, que só os condomínios de Alphaville podem nos oferecer. No meu caso, muito conteúdo audiovisual para tentar fazer o tempo passar até que a gente leia nos jornais a manchete que todos esperamos: achada a vacina para o Covid-19.

Comecei tentando reassistir uma lista de filmes que amo. Passei por Forest Gump, O Poderoso Chefão, Interestellar, A Origem, Bastardos Inglórios, Wall-E, Manchester à Beira-Mar, Tempo de Despertar e alguns outros dos quais sei as falas de cor. Infelizmente, durou pouco. Logo tive ânsia por algo novo. Fui atrás de outras formas de preencher a cabeça e encontrei algumas plataformas (como a Casa do Saber) que têm oferecido cursos online gratuitamente. Recentemente tive uma aula sobre Sócrates, o filósofo, não o jogador. Mas o que me deixou mesmo animado foi a série The Last Dance, da Netflix. Estão vendo?

A série mostra, por meio de imagens de arquivos e gravações de bastidores, o caminho que Michael Jordan (e o Chicago Bulls) trilhou no cenário da liga de basquete americana para se tornar um deus do esporte mundial.

Talvez Michael Jordan esteja para a NBA como Sócrates está para a filosofia ocidental, que é definida por pré-socrática e pós-socrática.

Mike revolucionou o esporte em todos os sentidos. Audiência, reconhecimento mundial, utilização do marketing, números incomparáveis de vendas, de conquistas, jogo mental, habilidades físicas (estamos falando de Michael AIR Jordan), e o aprendizado rápido da importância do jogo coletivo – essa lição em especial vale muito para nós.

Mas o que se destaca na série e o que mais me fez lembrar do grande filósofo grego é o nível de competitividade do astro. Cada vez que percebeu que existia algo ou alguém maior e melhor do que ele, MJ não parou até que superar essa barreira. Não saber algo era motivador para Jordan. Sócrates diria o mesmo em relação ao conhecimento. Para ambos a conquista do saber era profundamente realizadora.

Entre uma carreira de acertos e alguns poucos possíveis erros (como quando Jordan se negou a apoiar um candidato democrata negro ao senado, que concorreria contra um racista, com a justificativa de que “republicanos também compram seus tênis”), MJ deixou no esporte uma lição irrefreável de humildade na busca pelo que acredita. Isso deixaria Sócrates, condenado à morte por ateísmo e se recusar a negar suas convicções da busca pela verdade, orgulhoso.

É conhecida a passagem que conta que Sócrates foi consultar o oráculo pois desejava saber o que significava ser um sábio, já que muitos o consideravam como tal. O oráculo então lhe perguntou: “O que você sabe?” Ele respondeu: “Só sei que nada sei”. Mais uma bela lição para ocupar nossa cabeça nessa quarentena, né?

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