Helio Contador: "Como o cérebro positivo nos protege das coisas ruins da vida"

Pessoas felizes não são necessariamente ingênuas ou cegas à negatividade, mas podem responder de forma flexível e resiliente ao mundo em que vivem, reconhecendo coisas boas e ruins na vida
26/06/19 |
vero

Uma zebra selvagem está constantemente alerta à procura de leões e outros predadores, mesmo enquanto ela está procurando água, comida ou um companheiro. Os cientistas têm tradicionalmente ligado esse estado de alerta como uma função da amígdala do nosso cérebro. No entanto, pesquisas recentes sugerem que essa amígdala também é ativada quando as pessoas estão tentando atender aos chamados “objetivos prazerosos”, como o interesse dessa zebra em beber água, comer e acasalar.

Essa introdução serve para retomarmos um artigo anterior, onde citei os pesquisadores Summer Allen e Jeremy Adam Smith da UC Berkeley, quando eles comentam que a evolução nos dotou de instintos-chave para a sobrevivência, como evidenciado pela tendência do cérebro em sinalizar rapidamente e preparar o corpo para responder às potenciais ameaças do dia a dia. No artigo “Como um cérebro feliz responde a coisas negativas” eles acrescentam a perspectiva de que a felicidade está associada a uma maior tendência em o cérebro sinalizar e responder a fontes de emoção positiva.

Pessoas verdadeiramente felizes (não aquelas que só ficam felizes em algumas ocasiões especiais, tipo no dia do aniversário, ganhou um prêmio inesperado, foi promovido, formatura do filho, conseguiu um emprego, etc.) tem a capacidade de se manterem alegres mesmo nas condições adversas e nas dificuldades da vida que surgem para todos nós. Na verdade, os pesquisadores descobriram que nossa amígdala cerebral não se ativa só pelas ameaças e pelo medo, mas também nas ocasiões de felicidade, compaixão e conectividade com outras pessoas. Ou seja, pessoas felizes não ignoram as ameaças, e sim, olham para o lado positivo das coisas.

Somos ainda, por nossa hereditariedade pré-histórica, seres focados nas ameaças que nos circundam, ou seja, prestamos atenção nas coisas negativas da vida. É aquele estado de alerta permanente de luta ou fuga. Entendo que esse seja um dos motivos que nos prendem a atenção nos programas de Rádio, Televisão e Mídia Digital que focam nas notícias policiais, nas catástrofes e desgraças pelo mundo afora.

De fato, os pesquisadores descobriram que “a ativação da amígdala entre as pessoas mais felizes foi igualmente alta para estímulos positivos e negativos”, o que sugere que pessoas felizes não são necessariamente ingênuas ou cegas à negatividade, mas podem responder de forma flexível e resiliente ao mundo em que vivem, reconhecendo coisas boas e ruins na vida.

Ou seja, pessoas verdadeiramente felizes são mais alegres, tranquilas e equilibradas. A tranquilidade nos nossos pensamentos e ações é constantemente desafiada pelas notícias de violência, corrupção e injustiças da vida, porém quando ficamos cientes de que estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance e que não é possível termos o controle total das coisas, o equilíbrio e a harmonia se fazem presentes. Existe também uma ligação entre felicidade e altruísmo, pois quem está de bem com a vida tende a ajudar àqueles mais necessitados, o que acaba retornando como uma sensação de bem-estar e realização.

Certa vez ouvi uma pessoa comentar com outra: nossa você parece sempre feliz, sorridente; acho que você não tem problemas na vida. A resposta foi: problemas acontecem o tempo todo, mas a maneira como nós os encaramos e os enfrentamos é que faz toda a diferença. É comum também ouvirmos as pessoas dizendo que pedem, nas suas orações noturnas, que seu anjo protetor ou seu santo predileto lhes tirem os problemas da vida, enquanto o pedido correto deveria ser: me dê forças para enfrentar as mazelas dessa vida, por que elas virão de qualquer maneira!

Um abraço e até o próximo artigo.

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