Helio Contador: “Black Friday, um estresse para o cérebro”

Um dos gatilhos mentais muito utilizado pelos marketeiros está relacionado com a sensação de escassez de determinado produto

A selvageria nas compras do recente “Black Friday” nos dá uma amostra da fúria humana em querer levar vantagem nas compras, principalmente nessa época do ano. Pior que essa “vantagem” nem sempre é verdadeira, mas o cérebro humano ignora essa possibilidade, iludido pelas gigantescas campanhas publicitárias. Esse comportamento reflete uma busca em se conseguir vantagens através de um mínimo esforço possível e pagando o preço mais barato que se conseguir. Nessa hora precisamos lembrar que um dos gatilhos mentais muito utilizado pelos marketeiros está relacionado com a sensação de escassez de determinado produto, seja por uma quantidade limitada ou por uma determinada janela de tempo de venda.

As mídias sociais já noticiam o “Black Friday” muito tempo antes do dia marcado, que na verdade se tornou o “Black Month”, “Black Week” e “Black Weekend”, que provavelmente se estenderá até o Natal e ano novo. Além de uma avalanche de propagandas que se transformam num verdadeiro estresse, essas datas ativam um elemento fundamental no nosso cérebro, relacionado a uma necessidade de convívio social elementar, ou seja, modulamos nosso pensamento para coisas do tipo: se todo mundo vai às compras nessas datas, eu também preciso ir, afinal, sou parte de um grupo familiar, de amigos ou mesmo no trabalho, que fazem isso. Não posso ficar de fora e me alienar. É sobre esse convívio social que vou encaminhar nossa conversa de hoje.

Já tive oportunidade, em artigo anterior, de falar sobre os desafios de um cérebro desenvolvido para um convívio social em se adaptar num mundo de tecnologia digital, mas é preciso reforçar esse conceito de necessidade de uma vida social, como parte integrante do ser humano. As conexões sociais são tão importantes que nosso cérebro desenvolveu a chamada “dor social” como forma de garantir que estejamos sempre conectados a outras pessoas.

Pesquisas da Neurociência apontam que, estar socialmente conectado, é uma necessidade básica, não só humana, mas inerente, de certa forma, ao reino animal em geral. Sentimos um certo prazer social quando estamos ligados à outras pessoas ou então fazendo parte de certos grupos sociais. Adoramos nos sentirmos queridos e amados por outras pessoas, só que, quando isso não acontece, vem uma sensação ruim, que pode ser chamada de uma dor social. O interessante é que tanto o prazer quanto a dor são sentimentos que se sobrepõem, tanto no campo físico como no social.

A Teoria da Mente, segundo definição na Wikipédia (em inglês Theory of Mind – ToM), também designada por mentalização, é a habilidade de atribuir e representar, em si próprio e nos outros, os estados mentais independentes – crenças, intenções, desejo, conhecimento, etc. – e de compreender que os outros possuem crenças, desejos e intenções que são distintas da sua própria. É um processo que se baseia apenas na compreensão cognitiva do estado mental de outrem, sem se tornar emocionalmente envolvido. Déficits nessa função acontecem em pessoas com autismo, esquizofrenia, déficit de atenção, bem como consequência de intoxicação cerebral decorrente de abuso de álcool ou drogas. É como “pensar sobre o que os outros estão pensando”, que é diferente da habilidade de colocar-se no lugar de outra pessoa, a chamada empatia. Saber antecipar o que as pessoas estão pensando é um ponto fundamental para a vivência social, tornando-se um excelente desenvolvimento do senso cooperativo.

Segundo pesquisas do Prof. Matthew Lieberman, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e considerado um dos fundadores da Neurociência Social, “se sentir sozinho, isolado e desconectado socialmente, é pior para sua saúde e amenta sua chance de morrer, mais do que fumar 15 cigarros por dia!”. Ele destaca o fato de nos tornarmos mais felizes quando passamos um bom tempo com amigos, com pessoas que amamos, trazendo uma sensação de bem-estar geral na vida.

Isso se aplica também ao ambiente corporativo, daí a importância cada vez maior de se buscar uma melhor qualidade de vida dos funcionários e manter um bom clima organizacional, criando assim um ambiente mais produtivo e propício para criatividade e inovação.

Além do mais, nosso circuito cerebral de prazer e recompensa é ativado num ambiente de cooperação e ajuda mútua, quando o entrosamento e desempenho das equipes se torna mais eficiente e produtivo. Motivação e comprometimento se multiplicam quando entendemos o significado e as contribuições que fazemos aos outros.

Tendo isso em mente, talvez nosso entendimento sobre essas datas tipo “Black Friday”, possam ganhar um novo significado, ou seja, não se tornar um ser “alienado” caso não participe de compras, muitas das vezes, desnecessárias e inúteis.

Um abraço e até o próximo artigo.

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COMENTÁRIOS

  • Gostei. E o seu texto me levou a uma reflexao que presenciei.
    Há na regiao de Osasco uma construtora chamada Dubai. E quando alguém vai visitar o empreendimento (os decorados) os corretores desta construtora ficam a todo momento falando da qualidade Dubai, e automaticamente lhe remete a cidade Dubai (uma das mais modernas do mundo no segmento de engenharia), ao qual, não necessariamente os prédios que a construtora faz aqui em Osasco são de qualidade, mas o cérebro te dá esta sensação.

    • Obrigado Kleber. É isso mesmo, nosso cérebro é bombardeado com milhões de informações o tempo todo e acaba não distinguindo o que é real ou virtual.

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