Tensões globais e o novo cenário econômico

Tensões globais crescentes estão redesenhando a economia e aumentando o risco de instabilidade e conflitos. Os impactos já aparecem nos mercados e indicam mudanças estruturais na forma como o dinheiro circula.
17/03/26 |
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Uma leitura do economista Charles Mendlowicz sobre o avanço das tensões globais e seus efeitos na economia

Charles Mendlowicz é economista, sócio da consultoria financeira TickerWealth e fundador do canal Economista Sincero, onde analisa cenários macroeconômicos, mercados globais e geopolítica.

Charles Mendlowicz

CHEGAMOS a um ponto delicado no cenário geopolítico global. A pergunta que se impõe não é mais se as tensões vão aumentar, mas até que ponto essa escalada pode levar a um conflito de maiores proporções. O mundo vive hoje um período de forte polarização, enfraquecimento de regimes, instabilidade política e pressões econômicas que estão redesenhando o mapa dos investimentos globais e exigindo atenção redobrada de governos e investidores.

Minha leitura parte de acontecimentos recentes, como os desdobramentos políticos na Venezuela, que muitos interpretam como o início de um possível efeito dominó sobre outros regimes autoritários. Irã e Cuba, por exemplo, passam a entrar no radar como países que podem enfrentar movimentos semelhantes em um ambiente internacional cada vez mais fragmentado.

Os reflexos dessa instabilidade aparecem rapidamente nos mercados. O ouro disparou e já alcança US$ 4,5 mil, impulsionado pela busca por proteção em momentos de crise. O petróleo voltou a operar acima dos US$ 60 o barril, reagindo às tensões internacionais. No mercado de criptoativos, apesar da lateralização do Bitcoin, o grande destaque ficou para as stablecoins, que bateram o recorde de US$ 33 trilhões em transações, sinalizando uma mudança estrutural na forma como o dinheiro circula no mundo.

“Ouro, petróleo e stablecoins já refletem a busca global por proteção”

Para o Brasil, o desafio é duplo. Além da forte dependência do cenário externo, precisamos destravar o crescimento interno. Não faz sentido o país seguir excessivamente dependente da China. Nesse contexto, o acordo entre Mercosul e União Europeia representa um avanço histórico, construído ao longo de 26 anos de negociação, e pode abrir novas frentes comerciais importantes.

No plano doméstico, apesar de a inflação estar sob controle, as projeções de crescimento para 2026 giram em torno de 2%, abaixo da média global. Os juros elevados continuam sufocando a economia, limitando investimentos e a capacidade de expansão das empresas.

Vejo o Brasil ocupando uma posição estratégica no mundo livre, especialmente em um ano eleitoral decisivo. Em um cenário global instável e fragmentado, manter o equilíbrio fiscal e diversificar parcerias comerciais não é apenas desejável. É essencial para que o país não se torne apenas mais uma peça derrubada no tabuleiro internacional. 


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