Wilson Medeiros: “Pelo direito de sonhar”

O sonho é a matéria da vida. Acredito que, juntos, podemos agir e formar uma corrente capaz de criar uma mudança significativa no cenário da educação pública brasileira

Cena do documentário "Nunca me sonharam"
Cena do documentário “Nunca me sonharam”

O documentário “Nunca me Sonharam” tem um título no mínimo intrigante. A frase suscita, em quem lê, um certo despertar, com doses de enigma e mistério. Mas, depois de assistir o filme, você se sente envolvido e encorajado por um misto de amor e patriotismo. 

“Nunca me sonharam” estreou em junho de 2017, trazendo para as telas do cinema a triste realidade do ensino médio nas escolas públicas do Brasil. Na voz de estudantes, professores, gestores e especialistas, o documentário nos convida a entender os desafios do presente, as expectativas para o futuro e os sonhos de quem vive nesse universo – que é bem amplo. As escolas públicas do ensino médio são responsáveis por atender 82% de crianças e jovens até 19 anos. 

Foi essa parte a que mais me pegou. Muito porque vivi em um cenário semelhante na minha infância. Aos 6 anos, eu já ajudava meu pai na lavoura, na roça mesmo. Vivenciei diversas situações ali retratadas. Senti angústia, medo, desespero. Soube desde muito cedo o que era escassez e desigualdade. 

No meu livro que será editado ano que vem, relato no capítulo “Sabedoria Intuitiva”, uma das últimas conversas que tive com meu primeiro mestre, meu pai. Perguntei a ele:

 –Pai, do que o senhor se arrepende nesta caminhada de 82 anos?

– Da impossibilidade de ter estudado. Muito embora, filho, posso te garantir que sempre tive uma boa noção da vida!  O que me deixa feliz é que, com sua mãe, fizemos a nossa parte para que você e sua irmã estudassem.

Naquele momento, lembro que eu nem respirava direito, comovido, ao perceber seu espírito generoso e a pitada de sabedoria transmitida na resposta. 

O que seria de mim se meu pai não pensasse dessa maneira? No mundo dos negócios, a educação é o que reduz a distância entre a empresa e os jovens, facilitando o desafio de conseguir o primeiro trabalho. Sem educação de qualidade, estamos perdidos, porque não há como encarar a competitividade em um mercado globalizado.  

À certa altura do filme, um ex-ministro da Educação afirma:  “Este país não valoriza o conhecimento. Quando se fala em Educação, é da boca para fora. Não é culpa da escola e não creio que a escola deveria resolver isso. Esta é uma questão da sociedade”.  

Ao mesmo tempo, dá gosto ouvir depoimentos extraordinários, carregados de essência e de esperança, de guerreiros professores, especialistas, e alunos que fazem a diferença nesta valiosa empreitada. Só para ilustrar, nas palavras de alguns mestres: “Nós, professores, por mais que sofremos crítica por nossa base de formação, ainda somos um grupo engajado com propósito de ensinar e, ainda, por sorte, contamos com o “vício do sonho”,  porque aprendemos que é possível ensinar, mesmo em condições difíceis e desfavoráveis”, diz um deles. Outro, corajosamente, afirma:  “Eu faço essa escolha todo santo dia em que acordo e escuto que os alunos não querem vir porque não têm transporte, tá faltando água, não tem merenda… Aí, eu levanto com aquela vontade férrea e digo:  eu sou professor, não vou ceder espaço ao desistir .”

Um dos discursos mais desconcertante é o que dá título ao filme. É a fala de um jovem estudante de Nova Olinda, no interior do Ceará. Seus pais não o incentivavam a estudar e acreditavam ser difícil que um jovem pobre pudesse ter conhecimento e inteligência para deixar de ser “bóia fria”. “Eles nunca me sonharam sendo um advogado. Eles nunca me sonharam sendo um professor. Nunca me ensinaram a sonhar. Estou aprendendo a sonhar sozinho e a viver praticamente só”, diz ele.  

O sonho é a matéria da vida. Acredito que, juntos, podemos agir e formar uma corrente capaz de criar uma mudança significativa no cenário da educação pública brasileira. “Nós temos que mudar hoje, e eu quero participar da mudança. O futuro é agora!”, desafia um dos alunos entrevistados. Por fim, um professor desabafa, em tom de poesia: “A Educação é meu norte, minha vela, meu leme. Sem ela, não tem sentido!”.

Eu quero e posso dizer o mesmo. Se nossos governantes “nunca nos sonharam” como uma sociedade onde a educação é o norte, vamos sonhar juntos! E ensinar nossos jovens a sonhar. Ainda é tempo de transformar esse sonho em uma realidade mais bonita e menos desigual.

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