Hélio Contador: “A agressividade nossa de cada dia”

Agressividade é a palavra do dia, infelizmente! O que faz nosso cérebro acionar o botão de luta e agressão? Será que está aumentando ou é coisa antiga?

Na verdade, isso vem da linhagem dos primatas, que aprenderam a ser agressivos por conta de disputas de territórios por poder e por alimento, ou seja, foi fundamental para a sobrevivência daquelas espécies. Mas a pergunta que fica é: o ser humano, mais evoluído intelectualmente e (teoricamente) mais racional não deveria ter comportamentos mais civilizados?

Pelas leituras que fiz até hoje, a espécie mais parecida com o ser humano atual foi encontrada há cerca de 200 mil anos, o Homo Sapiens. Do ponto de vista evolutivo, o cérebro humano teve um aumento muito rápido se comparado com nossos ancestrais de milhões de anos atrás, porém pouco mudou da era Sapiens para cá. Os 10 mil genes e 86 bilhões de neurônios existentes no nosso cérebro tem a capacidade de realizar bilhões de sinapses que cuidam da linguagem, simbologia, emoções, sociabilidade, raciocínio lógico e outras capacidades que se expandiram e se tornaram mais complexas na espécie humana, lembrando que outros animais também demonstram possuir essas habilidades, numa forma mais rudimentar. A diferenciação é de grau, não de gênero.

Acontece que, mesmo com toda essa capacidade adicional e um índice de encefalização maior que as demais espécies, o ser humano ainda é regido, primariamente, pelos instintos de sobrevivência e reprodução. Lutar pela sua segurança, e de seus familiares, disputas de poder, sair à caça de alimentos e perpetuar a espécie humana estão na lista de necessidades básicas de qualquer um de nós.

Com o avanço dos processos alimentares, desde a época em que aprendemos a assar e cozinhar nossos alimentos, o processo digestivo humano foi se encurtando e com isso sobrou cada vez mais tempo para se realizar outras tarefas, incluindo mais tempo de sono. Enquanto nós, humanos, precisamos de poucas horas de alimentação durante o dia, um gorila, por exemplo, precisa de pelo menos 8 horas para se alimentar de alimentos naturais, sem cozimento, e assim ganhar as calorias necessárias para manter seu corpo ativo. Leia também: “Água para os neurônios”. 

O objetivo de comentar esses temas é somente para mostrar que ainda estamos próximos, culturalmente e socialmente, das espécies mais primitivas que só se preocupavam com suas necessidades básicas. Na minha opinião, nossas experiências de socialização ainda se encontram num estágio inicial, ainda muito primário. Afinal o que são 100 mil ou 200 mil anos de vida hominal sapiens perto dos 4 bilhões e meio da criação do planeta terra?

Nossa sociedade ainda não tem um padrão moral e social totalmente definido e aceito universalmente. Dependendo do país ou da religião, se encara as mesmas atitudes como podendo ser moralmente aceitas, tais como matar alguém em legítima defesa, matar o inimigo numa guerra ou abortar um feto inconveniente. Ao mesmo tempo, um assassinato cruel por motivos pessoais é altamente repudiado, assim como atos de suicídio ou sociopatia.

Entendo que, mesmo que ainda lentamente, nossa evolução moral tem feito progressos, só que numa velocidade muito inferior aos avanços intelectuais e tecnológicos. Temos que insistir na batalha de que só respeitando e amando ao próximo, à natureza e aos animais é que conquistaremos um lugar espiritual mais elevado. Viver em sociedade é aceitar as diferenças, respeitar as opiniões alheias, ajudar àqueles que tem uma carência maior do que a nossa. As diferenças sociais e culturais no nosso planeta ainda são enormes e o caminho é longo e árduo, porém não impossível.

Antes de encerrar, gostaria de responder a um amigo meu que me questionou sobre o artigo anterior, sobre um cérebro no Alaska, quando eu lancei uma pergunta e não respondi claramente durante o artigo. O questionamento foi: Como é possível um ser humano querer viver num lugar em que a natureza se mostra tão hostil para a sobrevivência da nossa espécie? O que há de tão atrativo nessa região?

Não tenho competência para dar uma resposta adequada à essa questão, mas me atrevo a dizer que podem existir algumas razões que atraiam as pessoas para viver naquela região. Entre elas estão a vontade de fugir do caos das cidades grandes, viver mais perto da natureza e não tão dependente da tecnologia, ter mais contato com uma vida animal mais selvagem, com mais respeito e menos agressividade, ou seja, um tipo de volta às origens. A beleza natural do Alaska é indescritível, só vendo mesmo. Será que acertei?

Um abraço e até o próximo artigo.


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